Conto: O Conde com olhos Safira



Titulo: O Conde dos olhos Safira
Autor: John Doe
Anfitrião: James L Flinders
Categoria: Adulto



O Conde com Olhos Safira


 James L. Flinders
John Doe
 


14 de julho de 1865
   Os primeiros raios de sol cortavam a fresta que minha cortina deixara na janela, atingindo meus olhos em cheio. Espreguicei-me e retornei para debaixo das cobertas sem nenhuma vontade de me levantar.
- Rosebelle! Acorde!
   Ouvi os gritos de meu pai vindo da sala, que voz ele tinha, consegui fazer estremecer até mesmo as paredes de meu quarto no segundo andar da casa. Sorri novamente e me enrolei mais ainda. Logo Tamara adentrou meu aposento, nervosa.
- Srta. Vinata, por favor, seu pai esta furioso, vou acabar sendo advertida por deixá-la dormir até essa hora – ela abriu a cortina.
   Recusei-me a olhá-la, até que tive meu lençol arrancado. Sorri alto.
- Por favor Senhorita.
- Fique calma Tamara, meu pai não vai se incomodar ou mesmo brigar com você – ajeitei-me na cama, sentando por fim.
- Mas hoje não é um dia qualquer, o representante de seu noivo esta vindo aqui para acertar os detalhes de vosso casamento – em sua pele morena o sol reluzia, brilhando como se estivesse apaixonado.
   Tamara era a mulata mestiça mais linda que poderia existir, não era a toa que meu pai a olhava com tanto desejo, imagino que se pode dizer que poucas mulheres eram quase tão lindas quanto eu.
- Srta. Vinata, por favor.
- Ah tudo bem, tudo bem...
   Saltei da cama e fui direto para frente do espelho, minha camisola branca não fazia jus ao meu corpo, e meus delicados cabelos ruivos, não importando por quanto tempo eu dormisse, sempre acordavam em sua perfeita ondulação, dignos de uma princesa.
   Sentei-me a frente da penteadeira. Tamara trouxe-me a bacia para que eu lavasse minha boca e rosto. Logo em seguida me despi daquilo que usava.  Se por um lado o sol brilhava sobre aquela pele morena, por outro sobre a minha pele branca e a perfeição das curvas em meu corpo, completamente bem cuidado pela natureza, ele simplesmente vibrava em êxtase. Vestir-me chegava a ser um pecado para todas as criaturas vivas.
- Não sei por que essa pose toda, somos nobres falidos, e além do mais, quem vem é o representando de meu noivo, não o próprio.
- Dizem que seu noivo é um dos Condes mais poderosos das terras do oeste, e é conhecido por conquistar todas as mulheres para as quais olha – ela penteava meu cabelo e me ajuda a vestir.
- Sei, provavelmente é outro velhote podre de rico que é louco para por suas mãos em meu corpo – rebolei um pouco – possuir-me em sua cama. A única diferença é que esse pode pagar o bastante, até mesmo tornar minha família parte da nobreza outra vez.
   Senti meu pulmão esvaziar quando ela me apertou o espartilho. Inferno, eu odiava usar aquela coisa, apesar de realçar muito duas belezas naturais que eu possuía. Sorri.
   Uma vez vestida em um dos genuínos modelos de costura da corte, com meu belo chapéu e sombrinha beges, da mesma cor de minha vestimenta, pude deixar meu quarto em uma pose mais do que prepotente.
   Desci as escadas suavemente, meu pai esperava na sala, seu bigode sempre me dava vontade de sorrir.
- Rosebelle...
- Papai.
- Você esta linda como de costume.
- Obrigada – ser perfeitamente educada e correta foi uma habilidade teatral que aprendi a utilizar com perfeição, como dizia minha falecida mãe, “Teatralidade é uma arma poderosa”.
- Bem, nosso convidado chegará em breve, sugiro que você e sua acompanhante deem um passeio pela cidade Dará um toque de personalidade você chegar depois que nossa visita estiver em casa. Esse tal Conde Countre parece gostar de atitude e gentileza em uma dama, eu o estudei bem.
   Escutei-o atentamente, ou ao menos fingi muito bem fazê-lo. Parece que teatralidade estava no sangue. Ele voltou-se para mim e voltou a falar.
- Esse casamento será nosso passe para uma vida além. E claro, o seu encontro com um mundo maior do que tudo com que possa sonhar.
- Perfeitamente meu pai – sorri como a bela e doce princesinha que deveria ser.
- Ótimo, agora vá. Mandarei Madalena lhe chamar, por isso não fique longe.
   Madalena era a nossa outra serviçal, para manter as aparências precisávamos de uma cozinheira, minha acompanhante e uma espécie de governanta. Ainda não sei que tipo de negócios meu pai faz para mantermos o mínimo da antiga vida, e sinceramente não me interessa saber.
   Curvei-me em cumprimento, levemente, e dirigi-me a porta da frente, com Tamara logo atrás. As ruas estavam movimentadas como sempre, a entrada de nossa casa dava de frente a uma avenida, se não existíssemos esse lugar seria uma encruzilhada. O sol estava forte, carroças e carros passavam sem dar trégua, mercantes e mensageiros rodavam por todos ao lugares.
   Eu não podia não sorrir quando praticamente todos os homens paravam o que estavam fazendo para me admirar com aquelas expressões de paspalhos, e sem duvida eu amava ver a raiva e a inveja nos olhos de suas mulheres e pretendentes.
   Tamara percebia.
- Todas as vezes que saímos é assim – disse ela.
- Essa cidade para por minha causa – sorri satisfeita – o que esses homens não fariam por minha causa? Matariam uns aos outros, largariam as mulheres e venderiam tudo que tem se eu fosse o premio.
   Seria um pecado eu me sentir tão poderosa e me gabar por isso, sendo essa a mais pura realidade?
   Demos algumas voltas no quarteirão, depois de um tempo os olhares se tornaram tediosos e repetitivos. A única coisa que me chamou atenção foi o carro que vinha pela estrada, era diferente dos modelos que corriam por essa cidade, que mais pareciam carroças sem cavalos. Esse era comprido, encurvado e não quadrado, negro, um toque de classe.
   Fiquei boquiaberta ao vê-lo passar por nós e o acompanhei discretamente com o olhar. Tamara praticamente virou o pescoço.
- Lindo não Senhorita?
- Totalmente diferente do que temos por aqui.
- E esta indo para a sua casa.
- Como?
   Era verdade, realmente ia em direção a minha casa.
- Parece que meu futuro noivo tem bom gosto para outras coisas além das mulheres – sorri presunçosa.
- Não deveríamos retornar Srta. Vinata?
- Ainda não, deixe que espere um pouco mais, mesmo que meu noivo não esteja naquele carro, não custa mostrar a ele que se me quiser, vai ser do meu jeito.
   Sorrimos.
   Continuamos a caminhar por mais um quarto de hora, depois passamos nas vendas e em algumas lojas do lugar, lógico que nada que pudesse fazer jus a mim era vendido nessas espeluncas, contudo seria melhor do que não ter o que vestir. Não, acho que estou enganada, qualquer trapo em mim ficaria mais belo do que algo feito da mais pura seda ficaria em qualquer uma dessas nobres que mais se assemelham aos burros que puxam as carroças que tanto desprezam.
   Quando voltamos para casa parecia que já havíamos dado tempo suficiente para deixar nosso convidado ansioso e até um pouco impaciente com nossa ausência, o instante perfeito para sermos convocadas a regressar.
  Uma vez dentro de casa fomos direto para a sala onde um homem pôs-se de pé. Era um senhor, bigode grande e cabelos brancos, era alto e parecia muito forte para a idade.
   Mantive meu olhar baixo e levantei-o graciosamente num sorriso angelical e sedutor, por um momento achei que o tinha feito tremer um pouco assim que me vira. Entreguei meu chapéu e sombrinha a Tamara e me dirigi a ele.
- Filha este é Mrs. Raidenovich Raikov, é russo, o mordo do Conde Countre.
- Estou encantada em conhecê-lo monsieur – curvei-me docemente e dei-lhe minha mão para beijar, este o fez sem cerimônia.
- O prazer é todo meu milady – sua voz era grossa, mas inofensiva.
   Sentei-me suavemente de frente ao nosso convidado, discretamente o analisei. Roupa feita sob medida, sem duvida de linha, não havendo nenhum sinal de maltrato ou de poeira, coisa que muito havia nesse lugar. Sem duvida este era de um resguardo impressionante. Postura alinhada, olhar firme, em nenhum momento tornou a me encarar, o que significa que respeita muito seu patrão.
- E quando o Conde nos agradará com o ar de sua presença para podermos fechar os arranjos finais para o casamento? – meu pai parecia ansioso demais, estava perdendo o foco.
- O Conde não virá – nós dois gelamos com essas palavras.
- Perdão mais como? – perguntou meu pai, eu já estava ficando assustada.
- Não haverá necessidade, eu já vi a noiva, sei que é exatamente o que ele deseja. O dote deverá ser pago ainda essa tarde, 300 mil libras esterlinas e claro a posse das antigas terras de sua família, bem como a restauração do seu brasão.
   Meu queixo e o do meu pai quase caíram.
- Meu amo esta mais do que disposto a pagar tudo que sua filha merece para se tornar sua esposa – terminou o homem com um sorriso no rosto.
   Seja quem for esse conde não poderia ser menos do que podre de rico, foi impossível meu sorriso não se abrir, finalmente algo que vale a pena ter. Independente do quanto seja desgostoso uma vida romântica com esse homem, valerá muito a pena.
- O Senhor e sua filha irão visitá-lo antes de oficializar o noivado para que ela julgue se ele é realmente digno dela.
  Todo resto da conversa já não me dizia mais respeito. Não me demorei muito mais na sala e me retirei, Tamara veio em seguida. Sentei-me em minha penteadeira e comecei a escovar meus cabelos.
- Você ouviu tudo aquilo Tamara?
- Lógico Senhorita.
- Esse homem é muito rico, muito poderoso e sem duvida tem classe – admirei-me novamente ao espelho – e semana que vem estarei indo conhecê-lo, você, claro, vem comigo.
   Ela sorriu, deve ter aprovado a idéia de viajar.
- Mas Srta. Vinata e se ele for, sei lá, horrível ou nojento, talvez um velho?
- E quem disse que me importo? Para isso servirão os belos capatazes, serviçais ou mesmo os rivais políticos de meu estimado futuro marido.
- Milady, a Senhorita chega a ser muito cruel – reprovou-me.
- Não estou casando por amor Tamara e nem ligo para este, vou apenas atrás do que quero.
***
27 de julho de 1865
   Pegamos a locomotiva aquela amanhã, ela nos levaria as terras oriundas do leste para o encontro com meu “amado” nas baixas terras alemãs. Ouvi dizer que sua casa se assemelha os jardins de nossa querida Paris, um gosto a seu vizinho, cultivado pelo conde.
   Tamara e meu pai eram os únicos que seguiam comigo por tal jornada. Os homens no caminho, no trem, não conseguiam desviar o olhar quando passavam por mim. Tenho certeza de ter visto algumas mulheres baterem neles, mas diferente de como é de meu costume não dei atenção desta vez, algo estava me puxando e prendendo meus pensamentos para essa nova terra, esse novo lugar.
   Já era quase noite quando descemos. Hospedamo-nos em uma pequena cidade a caminho de nosso destino. Tomaríamos outro trem pela manhã. Se possível quero esquecer a noite em lugar de tão pouca classe. Não que não houvessem tentado ser o minimamente refinados, contudo tentar não era o bastante, cheguei a sentir falta de casa por um momento, mas nada que não fosse superado pela esperança do que iria encontrar pela frente.
***
28 de julho de 1865
   A outra viagem fora tão pouco agradável quanto à primeira, mas devo admitir, a paisagem era fabulosa. Belos vales e montes, desde plantações e pastos até jardins e montanhas de mata densa. Uma terra magnificamente sedutora e perigosa. Eu amei.
   Pouco prestava atenção nas coisas que Tamara dizia, meu pai mais dormia do que todo resto e eu não fiz questão alguma de passear pela locomotiva.
   O sol começava a se por quando finalmente chegamos a nosso destino.
   Mrs. Raidenovich Raikov esperava-nos na plataforma de desembarque, seguido de mais um homem, chinês, robusto e de cabelos longos. Assim que nos viu ele se aproximou sorridente.
- Madames! Monsieur! Boa noite – beijo-me a mão, bem como a de Tamara – é um prazer revê-los.
- O prazer é todo nosso – disse papai, olhando para o chinês atrás dele, provavelmente se perguntando o mesmo que nós.
- Este é Lien Yang, o chamamos de Romeu se preferirem, nosso chofer e segurança – apressou-se em dizer ao ver nossa confusão – Romeu, pegue as bagagens e leve-as para o carro.
   O chinês obedeceu, mesmo que não fossem poucas malas ele deu seu jeito. Pelo visto meu querido conde gostava de cercar-se de pessoas fortes e competentes, mais uma qualidade para sua coleção, estou mais curiosa do que nunca. E se meu futuro marido for realmente o velho enrugado que imagino ser, talvez esse chinês mostre-se mais viril, quase gargalhei com o pensamento.
   Seguimos para o carro, aquele mesmo modelo luxuoso e único. O caminho para a casa de nosso anfitrião foi longo, a noite já circulava pelo céu livremente e a iluminação da rua era muito bem colocada, mas tudo em volta era floresta. Faltava apenas chegarmos num castelo antigo e mal conservado, onde meu noivo, um velho pálido e sombrio sentiria atração repentina por fazer caricias em minha jugular.
   Entretanto se eu tivesse feito desse meu pensamento palavras, eu teria de engoli-las de volta. O portão de metal era enorme, contudo nada de mal conservado vinha através dele. Um gigantesco jardim, com arranjos floridos muito bem localizados, árvores bem dispostas, paredes naturais de rosas que cortavam a região e um belo lago ao centro, ficavam a frente de uma enorme mansão, absolutamente linda e bem iluminada. Era como um palácio onde seria realizado um baile.
- Nossa – Tamara não se conteve – é magnífico.
- Tenho certeza que meu mestre ficará muito satisfeito em saber que lhes agrada a residência que eles lhe oferece e espero que apreciem a hospedagem – disse Raidenovich.
   Por dentro a casa era clara, num tom bege, simplesmente deslumbrante. Haviam empregadas e mordomos, e não eram poucos. Nos recepcionaram com o devido cumprimento e só depois de dispensados se dirigiram a seus afazeres. Nunca fiquei tão deslumbrada na vida. Achei algo comparável a minha beleza, todo esse lugar, tudo que ele representava, como se estivesse esperando para me acolher como sua legitima dona.
- E o conde? – não resisti em perguntar.
- Ele deverá chegar amanhã pela manhã, teve de se retirar em nome dos negócios – respondeu-me Raidenovich – venham, levá-los-ei a seus respectivos aposentos.
   Os quartos eram todos no segundo andar, a direita ficava o do meu pai, o meu no fim do corredor à esquerda, o de Tamara logo a minha frente. O do meu noivo era no corredor oposto, a grande porta dupla.
   Sentei-me em minha doce cama macia, em meus cobertores que variam de um tecido firme para aquecer-me a noite, até a pura e leve seda, para cobrir meu corpo tornando-o ainda mais delicado e belo,tudo em tons claros.
- Nada de Drácula pelo que vejo – falei.
- Como disse senhorita? – Tamara estava lá comigo.
- Nada. Creio estar apenas nervosa para vê-lo amanhã, fico imaginando se ele também combina com essa decoração.
   Não muito tempo depois fomos chamados para um excelente jantar requintado, até Tamara sentou-se a mesa conosco, por insistência de Raidenovich, em nome de seu patrão. O banho fora, de longe, a parte mais glamorosa, incluindo sais, massagem relaxante por parte das serviçais, água morna ao ponto, não faltou nada para agradar meu apetite por conforto. Imagino se minha acompanhante teria o mesmo tratamento, talvez. Tamara ficaria louca e envergonhada. Sorri com o pensamento.
   Dormi a noite dos justos.
***
29 de julho de 1865
   Como eu previ Tamara morreu de vergonha em ter seu corpo lavado e cuidado como uma senhora da alta linhagem, falamos sobre isso a manhã inteira.
   O café da manhã fora divino, a sala de jantar era soberba. Meu pai já não fazia companhia a nós. Estava admirando os jardins em companhia de seu novo melhor amigo, Raidenovich.
   Retornamos ao Hall de entrada.
- Deveríamos passear pelo jardim – disse Tamara – parece fabuloso.
- Concordo.
- Então espero poder ter a honra de acompanhá-las – a terceira voz era masculina e vinha escada acima.
   Vire-me de imediato para vislumbrar seu dono. A tonalidade no som que emanava da boca daquele homem não era apenas linda, era musical. Ela por si só estremeceu meu corpo, excitou-me. Pela primeira vez na vida olhei alguém e vi todas as minhas noções sobre beleza se moldar. Aquele homem era a encarnação do lado mais gentil, puro, belo e firme de tudo que havia nesse planeta. Sua beleza fazia a minha parecer pouco e a dos outros parecer nada.
   Sua postura era ereta, andava quase flutuando, a pele branca fazia contraste com as vestes formais negras, e também com seus cabelos de mesma cor, compridos e presos educadamente. Seu sorriso me derreteu, combinava perfeitamente com seu corpo magro, na medida certa. Ele caminhou até ficar de frente para mim, era mais alto, precisei olhar para cima.
   Por mais charmoso que tudo nele fosse, perfeito, nada era tão grande quantos seus olhos, eles não eram azuis, verdes ou vermelhos, eram diferentes, algo que ninguém julgaria possível, eles eram safira, cor de safira, roxos, beirando o lilás, claros, assim como pedra. Meus deus, apenas seu olhar já era uma jóia em si. Que homem era aquele?
- Srtas. – ele veio até mim – posso ter a honra? – deu-me seu braço.
   Eu o segurei.
   O passeio no jardim fora poético. Nunca ouvi alguém falar como ele. Na verdade, pouco prestei atenção às palavras em si. Cada movimento seu era suave, era brilhante. Foi uma tarde única.
   Os dias que se passaram foram tão formidáveis quanto.
***
13 de Agosto de 1865

   Está é a segunda vez que venho visitar meu noivo, não pude esperar mais de 10 dias para vê-lo novamente, creio estar apaixonada. O casamento fora marcado para o começo de Outubro, os serviçais estão cuidando de tudo, só preciso me preocupar em estar linda para o conde, o que não seria nem um pouco difícil fosse qualquer outro homem.
   Tamara não veio comigo dessa vez, meu pai precisou dela na nova, na verdade antiga, mansão da família que, junto com as terras, foram devolvidas a meu pai. Fora realmente uma sorte que o mesmo comprador de tudo que meu pai possuía quando faliu fosse o mesmo conde que viria a desposar-me.
   Eu agora usava vestidos caros e bem feitos, como este num tom de areia, corte regular e babado franzido por sobre as coxas. Andava muito mais ereta e bem alinhada, e até meu cabelo, antes sempre solto, agora viviam presos em belos arranjos, tudo pelo gosto dele.
   Era meu segundo dia e meu noivo havia reservado algo muito especial para me mostrar.
- Venha minha querida, é por aqui – indicou-me a gigantesca porta, aberta a pouco por Raidenovich – quero mostrar-lhe uma paixão que tenho.
   A galeria era imensa, linda, como um salão. Nele havia apenas alguns manequins, na verdade pareciam mais bonecas de cera em tamanho real. Vestidas com os mais lindos trajes, eram cinco mulheres, todas absolutamente lindas e muito próximo ao real. Era espantoso.
- Nossa que lindas, quem são?
- São lembranças, em homenagem a belas mulheres que conheci em minhas viagens.
- Elas foram... Suas amantes? – as palavras quase me rasgaram o peito.
- De certo modo, mas não como pensa – ele sorriu para mim e a dureza se partiu – Não fique com ciúmes meu amor – abraçou-me por trás – um dia farei uma para você, a mais bela de todas.
   Meu coração disparou ao sentir seus lábios acariciarem meu pescoço e todo meu corpo fraquejara.
***
03 de outubro de 1865
   Este é o grande dia. Tamara entrava em desespero por me ver tão linda, o vestido branco, de gola alta, quase roçando o queixo, decote avantajado e véu curto eram perfeitos, nunca senti meu corpo com tantas curvas. Alugamos um belíssimo jardim nos Cárpatos, na Romênia, para o casamento. O lugar estava lindo, um rei não poderia ter feito melhor. Seja de onde for que esse Conde com olhos safira tenha saído, ele sabia ser grandioso.
   Quando à hora chegou eu caminhei até o altar, com meu pai segurando meu braço. Olhei para ele, provocantemente. Nessa hora ele sabia que eu diria sim, que não havia retorno, eu seria a Senhora Niklaus Belfront El Contre.
***
04 de outubro de 1865
   Não sei descrever quanto prazer obtive durante toda esta noite. Estava morta de cansada e rindo a toa. Fiquei sentada, ainda nua, envolvendo-me apenas com a seda de nossa cama. Bati minhas pernas, me sacudindo, rindo e finalmente me joguei no travesseiro, suspirando.
- Meu deus que homem! – falei quase gritando
   Ele já se levantara, não o vi sair.
   Antes que eu pudesse pensar em me levantar ele entrou no quarto, carregando uma bandeja de café da manhã, com rosas brancas de enfeite. Quando o vi sorri, ele retribuiu. Não agüentei, joguei-me do jeito que estava para fora da cama, corria até ele, pulando em seu colo. Para me segurar ele largou a bandeja e acabou derramando tudo no chão.
- Rosebelle, mas o que... – disse sorrindo abertamente, pouco antes de ter seus lábios selados por meu beijo.
- Adorei o que você fez, mas esqueça o café, tenho fome de outra coisa.
   Ele apenas sorriu e não hesitou em levar-me para cama novamente. Não achei que do jeito que estava seria capaz de sentir todo aquele prazer de novo, não agora. Enganei-me profundamente.
***
03 de Maio de 1867
   Faz mais de um ano que estou casada com Niklaus, conheci o mundo nesse tempo, algo que a maioria das pessoas nem imagina que exista, florestas cobertas de neve no extremo norte do país, cachoeiras enormes em terras Americanas, o belo monte Fuji no Japão, dentre outros belos lugares. Meu marido mostrou-me tudo que conhecia, em um ano vivi por uma vida inteira. Fizemos amor ao ar livre, em lindos e luxuosos hotéis, mas admito que seja muito bom estar em casa. Talvez aqui eu tenha sorte em dar um filho a ele.
   Tomei um belo banho relaxante e pus-me a dormir, Niklaus dissera-me que o mais belo presente que ele havia me prometido ser-me-ia entregue ainda na próxima manhã, eu queria estar linda para receber tal honraria.
***
   Minhas costas doíam quando acordei, ainda estava escuro a não ser por uma lâmpada brilhante bem de frente para mim, por alguma razão não consegui falar ou mesmo me mover.
   Comecei a olhar para os lados, quando notei que estava nua, numa espécie de cama de pedra, amarrada e amordaçada com cintos de couro, comecei a me desesperar.
- Tenha calma Sra. Countre, não precisa se agitar – Raidenovich estava ao meu lado, usava luvas e um avental, junto a ele uma mesa com instrumentos cirúrgicos e um caldeirão.
   Meus olhos se arregalaram, entrei em pânico querendo fugir.
- Porque está tão nervosa meu amor? – olhei para ver Niklaus do outro lado, sorrindo docemente – Não há razão para isso, estou apenas dando-lhe o que prometi.
   “O que? Você esta louco, o que significa tudo isso?”, pensei e gemi.
- Não se lembra? – ele veio próximo, pude ver seus olhos brilhando, ele alisou meu rosto devagar, tive nojo, queria fugir – Eu te prometi a eternidade, a beleza e juventude. Prometi sua própria estatua de cera, e é o que lhe darei.
   Ele beijou meu rosto, eu tentei gritar, alto, mas apenas um gemido escapou pela mordaça. Ele se afastou me olhando.
- Sabe o que deve fazer e lembre-se, se ela tiver uma única falha, se estragar essa perfeição, sabe o que lhe acontece – disse.
- Claro mestre, eu ainda não falhei com o senhor.
- Até logo meu amor, estou louco para te ver de novo em algumas horas – disse-me sorrindo e saiu porta afora.
   Tentei gritar de novo, sem sucesso.
***
04 de Fevereiro de 1870
- Venha Heather, deixe-me mostrar-lhe meu tesouro – meu noivo abriu a porta da galeria.
- Nossa são lindas – exclamei ao ver a belas bonecas de cera, uma mais linda do que a outra, haviam seis, porem fora a ultima que mais me chamou atenção – esta é linda.
- Rosebelle, sem duvida a jóia dentre as jóias. Todas essas belas estatuas são presentes, em homenagem a essas mulheres que conheci em minhas viagens.
- Elas eram suas... Amantes? – perguntei me roendo de inveja, ou seria ciúmes?
- De certo modo, mas não como pensa – ele abraçou-me por trás – Não se preocupe meu amor, um dia farei uma em sua homenagem.

                                                              

                                                                         !!! 


 

6 comentários:

  1. Eu particularmente amo este conto.
    Algo tão bem bolado e brilhante, vindo de uma mente criativa.
    Estarei esperando pelos próximos....

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    1. Garanto-lhe que não se arrependerá de se hospedar em minha cidade, e que apreciará minhas outras histórias tanto quanto fez a esta.

      Espero que aproveite tudo que virá.

      Att, seu amigo...

      James

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  2. Que lindoooooo.
    Llindo.
    muito lindo!

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    1. Agradeço e aceito humildemente seu elogio, afinal é realment fabuloso não?
      :)
      Espero que um dia aceite meu convite para visitar as bonecas de cera, eu as guardo num local especial da cidade.

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  3. Um dos melhores contos!
    Parabéns!
    Nós do clube do livro adoramos o seu conto, O Conde com olhos Safira!

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    1. Fico mais do que satisfeito como o reconhecimento, e garanto nosso encanto é mutuo, desde que ouvi falar de vocês. Que tal fazermos algo? Se tiverem interesse enviem-me um email para jamesliquid23@gmail.com com um tema ou um pequeno resumo de alguma história algum personaguem, algo que gostariam de ver em um de meus contos, e eu o escrevei para vocês. O que me dizem? Afinal em New Perrish, e para mim, um pedido do Clube do Livro é lei.

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