Gaslight - livro I
Capítulo I: Canção do passado
[Amostra]
A chuva rala que caia do lado de fora da
janela era quase imperceptível, visto à hora em que eu me encontrava nesse
consultório. Não é qualquer psiquiatra que me atenderia. Passava da meia noite,
o céu negro confirmava.
Estava frio, seria por causa do ar
condicionado?
A atendente disse que ele logo chegaria e eu
sentei pacientemente dentro do escritório, já pronto para ser atendido. Contudo,
por hora, eu estava sozinho naquele quarto claro, dentro da noite escura.
Levou pouco menos de quinze minutos para a
porta abrir novamente, não me movi ou levantei quando o psiquiatra adentrou a
sala, despiu-se do jaleco e cumprimentou-me.
- Boa noite Sr. Silent
em que posso ajudar?
Sacudi os ombros.
Ele sentou-se na poltrona marrom a minha
frente, os cabelos e bigode grisalho davam-lhe a aparência de um homem em torno
dos 50 anos, embora eu realmente não soubesse a idade do Dr. Emmerich. Seu
olhar sob as lentes dos óculos parecia estudar-me detalhadamente, eu pouco dei
atenção, para ser sincero estava ocupado demais tentando organizar minhas
lembranças e descobrir como iniciar essa conversa.
- Bem poderia me dizer
a que veio essa hora Sr. Silent? – a
paciência dele não parecia estar em perfeito estado esta noite.
- Paciente problemático
hoje Doutor? –falei secamente.
- Todos os dias, mas se
não se importa gostaria de saber por que estamos aqui tão tarde da noite.
- Tem um jeito muito íntimo
de falar com um paciente– indaguei, ele
não pareceu gostar da minha afirmação.
- Essa não é a primeira
vez que nos falamos Sr. Silent – ele
perderá um pouco da autoconfiança que geralmente possuía, eu podia ver.
- Tecnicamente sim, uma
vez que nunca disse uma única palavra em nossos poucos encontros anteriores.
- Então no que esse
encontro se torna diferente?
- Essa, meu caro
Doutor, é a pergunta certa.
Ele parecia confuso, e não era para menos,eu
mesmo não entendia muito sobre o que estava prestes a falar.
- Por todo esse tempo
não lhe disse uma palavra porque eu não sabia o que falar, não conseguia
organizar o que estava em minha cabeça e mesmo agora, que tenho parte de minhas
lembranças, não consigo entender – ele
ouvia atento, como uma criança ouvindo uma história narrada pela mãe, típico de
pessoas como ele, interessadas na ilusão de outros – Achei que eu precisava
entender, mas agora sei que não posso, não sozinho.
- Então esta aqui para
que eu o ajude, certo? – ele ajeitou-se
na poltrona, finalmente parecia pronto para ficar ali por horas se necessário,
que reviravolta rápida de atitude.
- Sinceramente? Eu não
sei se você poderá entender ou acreditar, mas acho que vale a pena tentar – sorri estranhamente.
Um momento de silêncio se manteve, curto e
profundo, enquanto ele analisava minha expressão, meu sorriso, que tenho
certeza estava quase psicótico. Deixei o sorriso morrer e tornei a olhar para a
janela ao meu lado, a chuva ainda era fina e o preto era a única cor visível
através do vidro, apesar de que era o meu próprio reflexo que eu fitava, meus próprios
olhos refletidos, vendo a mim sobre toda aquela imensidão de nada. Gostaria de
uma daquelas músicas instrumentais agora, aquelas suaves que podem tanto por
uma criança para dormir quanto arrepiar a alma de um pensador.
O Dr. Emmerich não parava de me olhar, sem
dizer uma única palavra, acho que ele estava me dando o tempo que eu precisasse,
criando um clima. Eu adoro o suspense, ou será que eu deveria odiá-lo? Depois
de tudo acho que o ódio se encaixaria melhor, entretanto não consigo produzir o
ódio dentro de mim. Nostalgia, medo e tristeza é tudo que me resta agora, nada
além disso.
- Você já viajou para o
passado Doutor? – ele não disse nada
– uma viagem fria, da qual você não quer se lembrar? Da qual você não consegue
se lembrar e que vai voltando aos poucos mesmo que não queira? Porque se nunca
esteve em um lugar assim, se nunca se perdeu nesse mundo, então não sei se vai
entender minha história.
Ficamos calados novamente, encarei-o profundamente,
até que os olhos dele não agüentaram os meus e se desviaram por um instante.
Respirei fundo, talvez não fosse para ser, mas eu não tinha escolha a não ser
tentar.
- Acredita em monstros
Doutor? – ele se surpreendeu com a
pergunta – Responda.
- Não, não acredito.
- Pois deveria, todos
nós somos monstros, em alguma parte dessa imensidão chamada de alma que temos
em nós – olhei para a janela de novo e
não pretendia voltar a olhar para ele – pois bem, vou te contar o que
aconteceu comigo. Eu não tenho certeza de quanto tempo se passou desde então,
mas eu sei que estava lá. Lembro de tudo agora e gostaria de colocar essas
imagens na sua cabeça Doutor, apesar de que sei que me odiará por isso, pois se
acreditar e puder ver como eu vejo, sentir como eu sinto, nunca mais será capaz
de dormir novamente.
As gostas d’água batiam com mais velocidade
contra o vidro agora, quase podia senti-las molhar meu rosto. Sentir o arrepio
monumental que me encharcava por dentro, como um aguaceiro sem fim varrendo
qualquer traço de calor. A chuva torna-se meu pesadelo particular, o frio algo
constante, o silencio uma arma mortal nas mãos de todos, exceto as minhas, e a
saudade era algo que eu não podia me permitir sentir, se eu o fizesse, sem dúvida
jamais conseguiria continuar com essa vida.
Gostaria de ter sentido esse mesmo arrepio
antes de trabalhar naquele banco, antes de fazer amigos, antes de pensar em
planos, e principalmente, queria ter sentido isso antes de entrar naquele
carro.
***
Era outono, lembro-me bem das cores
avermelhadas nas copas das árvores no caminho para nossa cabana...
Eu dirigia devagar naquela tarde, as janelas
do carro estavam abertas, o vento entrava com força e eu podia senti-lo em meu
rosto, mas o que mais gostava era de vê-lo balançar para todos os lados o
cabelo longo, liso e escuro de Sandra, espalhando o perfume dela por todo
lugar, um aroma natural e lindo, que fazia meus órgãos se remexerem de
excitação por dentro de mim. Ela sorria bela, até hoje não descobri como uma
mulher tão linda havia se apaixonado por um cara como eu. Eu pensava ser
abençoado por Deus.
A rua que levava morro acima estava limpa, só
nós a percorríamos. Não que fosse esperado o contrário, quem mais poderia vir
por aqui? A cabana para onde iríamos era a única coisa no fim dessa estrada.
- Não acha que deveria
ir um pouco mais rápido? O sol está quase se pondo – ela falou, olhando para
mim, eu apenas pude retribuir o sorriso.
- Relaxa meu amor,
vamos chegar a tempo e também, quero aproveitar um pouco o cenário – em real o pôr
do sol estava mais belo hoje do que eu já o vira em muito tempo.
Sandra e eu estávamos casados há quase três
anos, nunca chegamos a ter lua de mel, eu trabalhava em um banco e não podia
sair de férias na época, portanto só agora poderíamos ter nosso momento de
descanso, com apenas nós dois no mundo.
Nunca quisemos um local grande ou famoso,
barulhento em outras palavras, para nossa viagem, visto que já vivíamos na
correria da cidade grande. Aluguei então uma cabana no alto de uma colina na
pequena cidade de New Perrish bem no interior.
Fizemos toda viagem de carro, por dois dias,
dormimos em motéis aproveitando ao máximo tudo que podíamos, sem dúvida
estávamos nos divertindo. Esse tempo sozinho com a minha esposa era um elixir
para revigorar o casamento, mesmo o nosso estando muito bem. Ajudava não termos
filhos, facilitava muito as coisas, mas espero dificultá-las logo breve.
Passei direto por New Perrish e fui pela
rota que levava a colina onde nossa cabana ficava, poderíamos nos instalar lá e
ver a cidade depois, tínhamos duas semanas para fazer tudo.
“Hello darkness,
my old friend
I've come to talk with you again
Because a vision softly creeping
Left its seeds while I was sleeping
And the vision that was planted in my brain
Still remains within the sound of silence
In restless dreams I walked alone
Narrow streets of cobblestone
'Neath the halo of a street lamp
I turned my collar to the cold and damp
When my eyes were stabbed
By the flash of a neon light
That split the night
And touched the sound of silence...”
I've come to talk with you again
Because a vision softly creeping
Left its seeds while I was sleeping
And the vision that was planted in my brain
Still remains within the sound of silence
In restless dreams I walked alone
Narrow streets of cobblestone
'Neath the halo of a street lamp
I turned my collar to the cold and damp
When my eyes were stabbed
By the flash of a neon light
That split the night
And touched the sound of silence...”
Deixar o rádio ligado foi uma boa idéia. Nos
filmes, nada tornava uma viagem, um momento mais inesquecível do que a trilha
sonora, e nesse instante, acho que algo semelhante é necessário, para marcar minha,
ou melhor, nossa memória.
“And in the naked
light I saw
Ten thousand people, maybe more
People talking without speaking
People hearing without listening
People writing songs
That voices never share
And no one dare
Disturb the sound of silence
"Fools" said I, "you do not know
Silence like a cancer grows
Hear my words that I might teach you
Take my arms that I might reach to you"
But my words like silent raindrops fell
And echoed in the wells of silence...”
Ten thousand people, maybe more
People talking without speaking
People hearing without listening
People writing songs
That voices never share
And no one dare
Disturb the sound of silence
"Fools" said I, "you do not know
Silence like a cancer grows
Hear my words that I might teach you
Take my arms that I might reach to you"
But my words like silent raindrops fell
And echoed in the wells of silence...”
Virei
à direita mais a frente e a pequena ruela, agora de barro e não mais de
asfalto, levou-nos direto a entrada da clareira, onde uma agradável casa de
madeira e vidro, que vista de fora estava muito bem conservada, nos esperava.
“And the people
bowed and prayed
To the neon God they made
And the sign flashed out it's warning
And the words that it was forming
And the sign said
"The words of the prophets
Are written on the subway walls
And tenement halls"
And whispered in the sound of silence.”
To the neon God they made
And the sign flashed out it's warning
And the words that it was forming
And the sign said
"The words of the prophets
Are written on the subway walls
And tenement halls"
And whispered in the sound of silence.”
Parei
o carro, olhei para minha esposa e ela olhou para mim, sorrimos e, por fim, nós
descemos.
- Não sei como você
conseguiu encontrar esse lugar – ela olhava em volta, o sol refletindo em sua
pele branca.
- Bem quando se
trabalha em um banco você acaba conhecendo pessoas que conhecem todo tipo de
coisas e lugares – fui pegar nossas bagagens no porta-malas.
- Sei, enquanto vocês,
homens de negócios, conversam sobre todo tipo de coisa nós, pobres enfermeiras,
temos de salvar vidas, então sobra pouco tempo para bater papo – ela veio a
mim, abraçou-me por trás e beijou meu pescoço, em seguida saiu correndo.
Eu sorri, ela disparou para dentro da cabana
na frente. Por vezes parecia que eu era casado com uma adolescente que estava descobrindo
o mundo agora, eu adorava isso.
Por dentro a cabana era ainda mais
agradável, bem conservada, muito limpa. A sala, logo na entrada, era espaçosa,
tinha um sofá à direita, de frente para lareira, sobre um belo tapete cor de
fogo, a esquerda apenas um armário com vários livros. Seguindo reto iríamos parar
na cozinha, mas antes passando por uma porta a direita que dava no banheiro do
primeiro andar, no corredor. As janelas eram de vidro na sala e na cozinha, o
que deve dar a casa um tom de luz muito belo pela manhã. O balcão, a pia, o
fogão, a geladeira e a mesa de jantar tomavam toda a área da cozinha, exceto
pela escada no canto a esquerda que levava ao andar superior.
- Estranho a escada
para o segundo andar ser na cozinha, no fundo da casa – comentei, enquanto Sandra
abria a geladeira para inspecionar.
- Deve ser charme da
arquitetura – ela sorriu – vamos precisar de mantimentos e a eletricidade esta
desligada.
- Provavelmente o disjuntor
está desligado, é só ligar, vejo isso num segundo.
Subi as escadas para o andar de cima, o
corredor era bem ventilado, a janela de frente a escada estava aberta,
provavelmente esquecida assim, havia uma primeira porta a minha esquerda, em
direção a parte da frente da cabana, que dava em um quarto menor e outra porta
mais a frente que levava a um espaçoso quarto de casal com suíte.
- Uau – sorri e atirei
as malas ao pé da cama – isso sim é um quarto, acho que eu vou gostar daqui.
A cama ficava encostada na parede, de lado a
ela uma enorme janela de vidro, isso tornaria tudo mais interessante, de frente
a ela o banheiro, um guarda-roupa grande estava a minha esquerda, logo após a
porta. Admirei um pouco o lugar antes de voltar ao andar inferior.
- Sandra o quarto é
incrível – ela estava mexendo no registro de água, que convenientemente ficava
na cozinha, na parede oposta ao do disjuntor de energia – você vai adorar.
- Hum, parece
interessante – ela virou-se para mim – já liguei a luz e a água.
Caminhei até ela e abracei-a pela cintura.
- Que mulher eficiente,
não precisou de mim – apertei-a.
- Não preciso de você
para nada, posso fazer tudo sozinha, tudinho – ela riu-se, me provocando.
- Tudo mesmo?
- Claro, quer ver?
Vamos até o quarto que eu mostro para você – ela se soltou de mim e correu
escada acima.
- Só se for agora –
corri atrás dela, rindo.
Bati a porta atrás de mim quando entrei no
quarto. Ela encarava-me com olhar provocador, mordia o lábio e sorria. Foi
abrindo o botão de sua jeans e descendo o zíper devagar.
- Você não está fazendo
isso – diferente de toda sua provocação e classe fui logo ao ponto e sem dó,
arranquei minha própria blusa com violência.
- Uau – ela gargalhou –
ah, se me pegar com essa violência toda não sei se agüento amor – ela fez voz
de menina, e gemeu baixinho, tirando por completo a calça.
- Ah sua – pulei na
cama para pega-la.
Ela gritou e saiu correndo, para o lado
oposto, rindo sem parar.
- Nem tenta fugir
mocinha, venha aqui – ameacei.
Ela não fugiu por muito tempo. Peguei-a no
colo e a joguei no colchão macio da cama. Ela ficou deitada, apoiada apenas nos
braços, fazendo cara de amedrontada.
Saltei sobre ela, prendendo-a com meu corpo.
- Não precisa ter medo
– falei calmo – não vai doer quase nada.
- Quase nada? – ela
gritou e me bateu – Seu salafrário.
- Tá faltando é bem um salafrário
na sua vida mesmo
Beijei-a com paixão, jogando-me sobre ela.
Então a resistência acabou, a brincadeira acalmou, ela sugou-me para si em
desejo absoluto, e todo resto podia esperar.
!!!


Beijos com paixão.. kkk
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