Titulo: O Bar das Ovelhas
Autor: John Doe
Anfitrião: James L Flinders
Anfitrião: James L Flinders
Categoria: Adulto
Arquivo: Segredos&Noites # 1
Segredos & Noites
James L. Flinders
John Doe
John Doe
I - O Bar das Ovelhas
Já devia passar das duas da madrugada, a cerveja já estava quente e os outros dois ingratos que eu costumo chamar de amigos saíram e deixaram a conta para mim.
- Porque será que não estou surpreso? – sussurrei.
Fazia dias que eu não recebia uma única mensagem no celular, ou mesmo que atendia qualquer tipo de ligação que não fosse cobrança. Passava por um dia, apenas para chegar ao outro, um desperdício absoluto de meus 25 anos, talvez por isso eu aparente ter 30.
- Ei Jensen! – o barman, Burton, um velho próximo dos cinqüenta que mais parecia um veterano de guerra com seu bigode ao melhor estilo dos anos 60, grita impaciente – Será que dá para terminar logo? Planejo fechar ainda hoje.
Não sei por que ele tinha tanta pressa. O bar era fechado, com uma atmosfera sufocante, mal iluminado e fedia fortemente a cigarros. Não me dei ao trabalho de responder. Bebi o resto de cerveja quente, atirei o dinheiro sobre a mesa, suspirei e fiz um esforço para ficar de pé sem cambalear.
- Melhor tomar cuidado para não acabar embaixo de um ônibus – esse era o jeito gentil de Burton para ordenar, já que ele nunca pedia por nada, que eu tomasse cuidado.
- Os ônibus já não rodam mais nesse horário – coloquei meu sobretudo e sai para o cortante vento gélido da noite fria.
Essa cidade não tem nada de especial, acho que pelo contrario, é tão ordinária que chega a doer. Prédios, lixo e pessoas, esse ultimo são os piores se vocês querem saber. Olhe em qualquer direção e tudo que vocês vão ver são um monte de nada que vivem de não fazer nada e preferem andar dopados em seus sonhos perturbados do que realmente olhar para a miséria a qual se acostumaram a chamar de vida.
Minha casa, melhor dizendo, o apartamento minúsculo em que vivo fica bem no meio dessa zona. Minha vontade era de por fogo em tudo, eu deveria tomar coragem e fazer isso, mas no final sou apenas mais um desses montes de vermes que rastejam nessa sujeira toda.
Não ascendo às luzes, jogo minhas roupas no chão, não como ou tomo banho, apenas me atiro na cama, prevendo a terrível ressaca que me comeria vivo na manhã seguinte.
***
Meus olhos começaram embaçados, e levou um tempo considerável para se acostumarem a pouca luz, acho que seria pior se estivesse mais claro. Meu sangue foi gelando à medida que eu percebia o que estava em volta de mim, e eu não reconheci absolutamente nada.
- Mas que droga ta acontecendo aqui?
O lugar parecia um grande buraco negro, eu estava jogado no meio de escadas flutuantes. Elas subiam e desciam, mas não haviam paredes. As luzes surgiam de muito longe no breu e não parecia haver uma única alma viva em volta.
- Olá! – gritei – Tem alguém ai? Onde diabos eu estou?
Ninguém respondeu, não havia nada, não havia ninguém, ao menos ainda não.
O silencio fortificado machucava meus ouvidos e minha voz ecoava, cada vez mais desesperada. Antes que eu pudesse notar estava em lagrimas, difícil explicar o porquê, não sei se era medo, ou algo pior. Chamei por Deus, por anjos, por qualquer coisa que estivesse meu ouvindo. Esse foi meu erro número um.
Minhas preces por companhia foram ouvidas, da pior maneira possível. Era difícil definir aquele som, o mais próximo que posso imaginar é o de um grito que gerava uma sensação de dor naqueles que o escutam, como unhas a arranhar e quebrar num quadro negro. Em seguida veio o tremor.
Eram mãos gigantescas, enrugadas e feridas. As unhas eram gigantescas, esmigalhavam os degraus , e todo o resto do que quer que fosse,ao fazer contato. A criatura estava encoberto pelo breu, ao fundo eu podia apenas enxergar seus olhos, tão prontos e cruéis quanto as mãos de bruxa que se arrastavam em minha direção, lentamente.
Eu gritei a plenos pulmões, devo ter dado muita sorte em não congelar, pois fui capaz de correr, como jamais havia feito antes, na direção oposta, para longe das mãos monstruosas. O desespero foi meu segundo erro. O chão a minha frente começava a se dissolver, e quando não o fazia, tornava-se fino e quebradiço, como um lago congelado próximo a primavera. Uma armadilha mortal de todos os lados. Eu quase cai, a escuridão quase me puxou, e se tivesse obtido sucesso, eu provavelmente iria descobrir o que mais esconde aquela coisa.
Consegui me salvar desta vez, mas tive a impressão de que não aconteceria novamente. Tive de ficar atento, observar o chão a cada passo, avançar com cuidado, porem ele continuava subindo, estava mais próximo, seu grito agora me tremia o corpo inteiro. Não havia duvidas de que a morte me esperava naquelas garras.
Por mais que eu avançasse não parecia ter fim, aquele caminho infernal.
- Maldito pesadelo, eu quero acordar!
Gritar e correr, era tudo que podia fazer, era tudo que eu podia esperar, até chegar ao fim, até chegar ao topo, e ter esperança, pois uma eternidade depois eu pude ver uma porta, uma porta de metal, no formato de um espelho suspensa no nada. Eu chorei de felicidade quando a alcancei, estava aberta e eu podia passar, e foi assim que eu consegui me salvar, mesmo que minha perna tivesse sido fatiada numa fração de segundo em que a besta quase me alcançou.
***
- Ahrrr! – acordei aos gritos.
Sentei na cama e respirei tão forte que meu peito doeu, mas não tanto quanto minha perna, ela ainda estava ali, mas eu podia sentir a dor.
- Deus do céu o que foi isso? - gritei alto, ao nada.
Passei o resto do meu dia revivendo aquele terrível pesadelo e o quanto ele parecia real. Minha mente não me deixou repousar nem por um instante e quando encontrei com meus amigos no bar de sempre, mais a noite, minha cara estava ainda pior do que estivera nos dias anteriores.
- Cara você esta péssimo – Albert exclamou com ênfase.
- Muito obrigado pela gentileza – cuspi as palavras, não estava com paciência para ouvir gracinhas.
- Você esta igualzinho ao Stu sabia? – Brad soava animado mesmo quando não desejava.
- Que tem o Stu? – perguntei.
- Você andou vendo-o ultimamente? – Brad sorria como se tivesse feito uma grande observação.
- Não mesmo – meu interesse desaparecia mais a cada momento.
- Parece que ele esta morto.
- Como assim morto? – eu quis saber.
- Não exagere Brad – retrucou Albert – ele esta desaparecido.
- Por mais de 3 dias, provavelmente morto.
- Ou bêbado, jogado em algum beco sem lembrar do próprio nome.
- Qual é Albert, pense bem, ele andava com uma péssima aparência, reclamava da falta de sono e dos pesadelos...
- Pesadelos? – exclamei.
- Pois é – Brad parecia gostar muito da história – sem duvida eram premonições do que estavam por vir, e agora ele some. Sem duvida isso...
- Não quer dizer nada – interrompeu Albert – eu sonhei com a minha sogra, nem por isso virei um presunto.
- Você é só um...
Eles continuaram discutindo, mas eu já não ouvia absolutamente nada. Stu estava tendo pesadelos e depois desapareceu. Pode estar interligado, mas também pode ser coincidência. Tive um sonho ruim, isso não quer dizer nada.
Brad e Albert já tinham ido embora há um tempo considerável, mas eu permaneci bebendo um nojento drink. Para ser honesto estava com medo de voltar para casa, com medo de dormir, mas isso não podia ser evitado, era melhor resolver de uma vez.
Burton acabou por me expulsar novamente. Tenho a leve impressão de que ele não gosta tanto assim de mim.
Não demorei muito para regressar ao apartamento. Tive de controlar meu receio e ansiedade antes de finalmente deitar, o sono, porem, veio rápido e o cansaço não me deu trégua.
***
Mal abri meus olhos, logo após fechá-los literalmente, e essa falsa realidade já apanhou-me em sua conjectura. A porta de metal atrás de mim foi atingida com força e quase se abriu. O choque me fez saltar para longe.
Em meu ultimo pesado eu atravessei esta mesma ao fim da escadaria, e agora estou do outro lado, o que significa que a criatura que me perseguiu a noite anterior ficou para trás e eu espero que continue assim.
Dei alguns passos, ainda fitando a porta, foi só quando me virei para o lado que percebi onde estava. Parecia uma espécie de igreja, não havia paredes, apenas pilhas gigantescas de livros fechando o local, as mesmas eram tão altas que chegavam a desaparecer na escuridão acima, onde a visão não podia alcançar.
Os bancos de madeira estavam destroçados, tudo parecia velho e empoeirado. Não havia também imagens de santos ou altares preenchidos, apenas vazios e ao fundo um confessionário, de onde se originava a fonte de luz mais poderosa do lugar.
Fiquei receoso em aventurar-me a principio, não durou muito. Eu sabia afinal que estava dormindo e se apenas parasse e deixasse o tempo fluir eventualmente eu acordaria, mas o medo não me deixou ficar, medo de não conseguir abrir os olhos se não seguir em frente, algo estava me dizendo que isso é exatamente o que iria acontecer se eu ficasse parado aqui.
Os primeiros passos são os mais difíceis, mas não os mais amedrontadores, qualquer barulho ou rangido em volta era o suficiente para me fazer congelar no lugar, obrigando-me a recomeçar.
O caminho era mais longo do que parecia. Eu estava descalço e as farpas no chão feriam meus pés e meu orgulho. Não parecia haver qualquer tipo de companhia próxima, e essa solidão acabou por acalentar meu coração até que, enfim, eu fosse capaz de chegar até a porta do confessionário. Quando a abri uma luz forte e alaranjada machucou meus olhos. Por trás dela ao invés de um banco onde sentar, ou um padre para conversar, havia um corredor de pedra contornado por grades de cercado, ele descia em diagonal até atingir o fundo, de onde a luz era oriunda.
Respirei fundo e comecei a descer o mais silencioso que pude. O chão era íngreme, escorregadio e de difícil equilíbrio, as grades se tornaram de grande utilidade nesse momento. Ao fim do caminho não existia nova porta, apenas uma abertura que levava a uma espécie de grande fornalha.
Esteiras carregavam caixas fechadas até a boca da fornalha, origem da luz alaranjada. Variados aparelhos de abate estavam espalhados por ganchos presos ao teto, sobre mesas de metal largadas em cantos diversos e até ao chão.
Eu podia ouvir murmúrios, berros suaves que ecoavam de todo lugar, chegavam a arrepiar a alma, contudo, nem de perto os sons eram o mais perturbador do local. Havia algo na parte mais escura da fornalha. Escondido pelas sombras que as chama geravam. Parecia dormir. Devia ter mais de dois metros, era deformado e monstruoso, sua pele parecia estar toda manchada de sangue e coberto por restos de terceiro. Usava um avental e luvas brancas, bem como mascara e chapéu, exatamente como um açougueiro, e próximo a ele uma porta de metal, idêntica a qual entrei para fugir da bruxa encapuzada da noite passada.
“Era isso, sem sombra de duvidas, minha porta de saída, quando eu finalmente passasse por aquilo estaria livre, acordaria desse pesadelo nojento e, uma vez acordado tudo ficaria melhor.”
Caminhei o mais silenciosamente que pude, praticamente agachado para não chamar a atenção do cozinheiro adormecido. Usei as sombras para me esgueirar até a porta, parando e me escondendo a cada respiração pesada dele. Não era difícil imaginar que, se ele me pegasse ali, seria meu fim com certeza. Uma vez na porta vinha à parte delicada, girar a maçaneta sem fazer barulho.
Bem devagar eu forcei-a para a lateral, um pouquinho de cada vez, mas ao fim houve um estalo, a porta estava trancada. Por um instante quase xinguei em voz alta, mas acabei ressoando os palavrões e maldiçoes em minha cabeça apenas. Tinha de haver uma chave em algum lugar, só espero que não esteja no bolso do dorminhoco.
Retornei para a parte da frente da fornalha, tentando visualizar uma chave em algum lugar, qualquer lugar, não tive sucesso.
Em determinado ponto as esteiras pararam. Quase que possuído pelo pavor eu me lancei atrás de um tonel e fiquei imóvel de imediato, por uma graça dos céus esse foi o exato momento em que a criatura acordou. Ele deu um urro violento e pôs-se de pé. Parecia reclamar muito com a parada da esteira. Caminhou até uma das caixas e a abriu, gritou alto e moveu-se para o lado oposto, o caminho que levava até a igreja abandonada de onde eu vim.
Essa era minha chance, sem ele por perto eu corri, olhando todos os cantos que pude a procura da... “Chave!” Quase gritei outra vez. A chave estava dentro de um pode de vidro, numa estante de frente aos tonéis onde me escondi. Não consegui abrir a tampa então quebrei o vidro o mais silenciosamente que pude, não houve sinais de retorno do grandão, então não foi um total fracasso.
Apressei-me em direção a porta, mas acabei distraído, pelos sussurros, agora ainda mais altos. Eles vinham da caixa aberta. Minha curiosidade acabou me engolindo e eu caminhei até lá. Algo estava se movendo dentro da caixa, eram muitos e estavam vivos, ou assim eu pensei antes de realmente ver o que havia ali. Frutas, frutas avermelhadas do tamanho de mangas bem avantajadas que tremiam e sussurravam.
- Mas que porra é essa?
Peguei uma delas a virei e larguei no mesmo instante.
- É um rosto – falei gaguejando – a fruta tem um rosto!
Olhos fundos e negros, sem Iris nem nada, apenas um buraco no lugar dos olhos, um nariz torcido de onde dificilmente se poderia respirar, e uma boca, sem dentes, mas com gengivas e língua. Senti o vomito rasgar minha garganta numa tentativa de sair, e teria saído se o açougueiro não tivesse voltado e me agarrado pelo pescoço.
Tentei gemer alguma coisa, sem sucesso, mas ele urrava com vontade e me esganava com ainda mais vontade. Comecei a me debater, chutando e tentando me soltar, inutilmente. Ele fedia, fedia demais. Meus braços se lançavam aleatoriamente, tentado alcançar algo para usar, mas não havia nada, nada além das frutas.
Apertei uma delas contra os olhos do monstro. Ela explodiu em pedaços, ferindo seus olhos e me lambuzando inteiro. Ele finalmente me soltou, rugido de dor. Forcei o ar para meus pulmões e isso queimou. Quando minha mente voltou a funcionar eu reparei em algo que não devia. A fruta despedaçada em minha mão parecia feita de carne e o suco que dela provinha era...
- Sangue! – gritei e corri desesperado para a porta, a chave ainda estava comigo.
Forcei-a na maçaneta o mais rápido que pude, mas o monstro já havia retomando seu senso e corria para mim derrubando tudo no caminho.
***
Acordei em agonia, quase sem poder respirar, com meu corpo todo dolorido e meus olhos lacrimejando.
Levou um tempo até eu perceber onde estava e mais tempo ainda para meu coração parar de tentar explodir em meu peito, nesse ponto o desespero foi se tornando uma emoção bem diferente.
- Eu estou vivo! Estou acordado! Não estou morto... não estou...estou vivo...vivo...ha...haha...hahaha!!! Toma essa seu filho da puta, eu ainda estou vivo!!!
O alívio e o furor da vitória também não se demoraram e antes de notar eu estava chorando, desesperado com a possibilidade de retornar aquele lugar amaldiçoado. Uma bruxa e um açougueiro, o que viria a seguir?
Tomei um maravilhoso banho de água morna e pude relaxar por um tempo. Haviam marcas em meu pescoço, suaves, mas estavam lá. Tomei meu café o mais calmo que pude. Hoje eu não vou trabalhar, hoje eu vou descobrir o que houve com Stu. Precisava achar um jeito de escapar dos pesadelos, essa talvez fosse minha única chance de permanecer vivo.
O sol estava violento hoje. Boné, óculos escuros, roupas leves e um picolé de limão não foram o bastante para diminuir a sensação de abafamento que se sentia na rua. Nenhum sinal de brisa ou sombra que pudesse amenizar a situação, e minha caçada acabou se provando em vão.
Em, seu prédio, ninguém tinha qualquer informação sobre Stu, porteiro ou vizinhos não viram ou ouviram nada de estranho, ele apenas não veio para casa uma noite. Tentei a mãe dele, que vivia no interior, minha ligação serviu apenas para deixá-la ainda mais preocupada. Os amigos sabiam tanto quanto eu, e pelo que parece a namorada do Stu o chutou quando pegou uma garota com a boca nele, e não era na boca dele, no banheiro de uma balada onde ele mesmo a havia levado para comemorar o aniversario da cunhada. Não me surpreendeu saber que a irmã dela era a tal garota.
Ao fim da tarde minhas esperanças já haviam se esmigalhado e o cansaço do dia agitado começara a bater em mim mais cedo que de costume. Tomei dois litros de energético para espantar o sono que suavemente ameaçava me colocar em seu colo.
Em meu apartamento eu estava inquieto, o medo rondava a espreita de uma chance para me infectar com a possibilidade de retornar aquele mundo. Eu não estava nem um pouco curioso para saber o que estava atrás da porta número três.
Quando a hora chegou resolvi sair de casa e fui ao Bar de sempre. Quem sabe alguém lá não tivesse visto Stu em sua ultima noite entre nós?
Estava mais agitado hoje. Meus amigos não estavam lá, ou chegariam mais tarde, ou não viriam hoje. Não os culpo, em meio a semana nem sempre se tem disposição para farrear e cair na gandaia, além do mais eles já me disseram tudo que sabiam sobre o desaparecimento de nosso amigo, não havia nada de novo que eles pudessem informar, creio.
Havia uns caras bem grandes e barbudos no Bar dessa vez, caminhoneiros ou motoqueiros na certas. Garotas em shortinhos jeans curtos sendo apalpadas e levando tapas enquanto sorriam e bebiam muito. Só Burton estava de cara amarrada. “E quando é que ele não esta?”.
Sentei-me no balcão dessa vez, longe da algazarra.
- Ao menos um que não parece um maldito viking da era do gelo. – ele estava mais chateado que de costume.
- Algo errado? – perguntei.
- Além desses protótipos de macacos sujando meu bar inteiro? Uma maravilha de dar inveja.
- Você sempre gentil como uma rocha – sorri.
- Quando o destino finalmente me manda clientes que consomem muito são esses animais, é como se a vida me mostrasse o paraíso apenas para me enrabar enquanto eu estou distraído com a vista.
Ri mais alto ainda. Burton me mandou uma bebida.
- Que porra é essa? Parece sake – reclamei.
- E eu lá tenho cara de japonês? Isso ai é pra tirar essa cara de derrota do seu focinho – ele começou a me servir um uísque – agora beba algo de verdade.
A farra durou muito tempo, eu já estava bastante tonto quando a maior parte dos baderneiros começou a sair.
- Escute aqui Jensen, se você vomitar na minha bancada vou lhe enfiar a garrafa de uísque inteira goela abaixo, não vai ser agradável para você.
Tentei responder, mas minha mandíbula fraquejou. Minha visão estava embaçada e aos poucos, um por um dos meus músculos começou a falhar e meus sentidos começaram a desligar.
- Jensen, você esta bem? O que...
A voz de Burton morreu, logo em seguida fora sua imagem, e por um tempo tudo ficou escuro...
***
... Até o brilho alaranjado começar a incomodar meus olhos. Eu ainda não conseguia enxergar direito, tudo pareciam flashes em meus olhos, uns mais nítidos do que outros. Sons começavam a se misturar, desapareciam e depois ressurgiam, como se em um momento eu estive no fundo do mar e tudo fosse silencio, ao emergir na superfície os sonos me invadiam, um vai e vem furioso e sem dó. Entretanto eventualmente eu teria de acordar.
Observei em volta e a principio nada reconheci, tentei mover meu corpo sem sucesso, mas a sensação foi diferente, não era como seu eu não tivesses forças para a ação, eu estava sendo impedido.
Atado a uma espécie de mesa de abate manchada de sangue negro e cobre. Braços pernas e torço imobilizados.
- Não... Não! Porque? Como foi que...
Aos poucos ficou claro onde eu estava, ainda estava na fornalha. Reconheci os gemidos das frutas feitas de carne e a silhueta do açougueiro no escuro, amolando suas facas.
- Não pode ser!
A verdade caiu em mim como uma pedra.
- Eu nunca escapei – tremi ao recitar a frase.
Nunca cheguei a sair pela porta de metal, acordei no momento em que fui capturado.
Comecei a chorar. As lágrimas escorriam mornas por meu rosto, mas libertá-las queimava meus olhos. Eu ia morrer e sabia disso, apenas sabia, assim como Stu morreu, sem sombra de duvida, e como, garanto, que outros também morreram. Que Deus tenha piedade do próximo infeliz que tiver esses pesadelos.
O carniceiro caminhou até mim e vendo que acordei começou a gemer, gritos baixos e incompreensíveis. Outra vez os flashes recomeçaram, alterando aquela dimensão, mudando o cenário até os berros darem lugar a uma voz, e seu rosto deformado a um rosto humano. Eu acordei no meio do sonho.
***
- Você acordou finalmente, estava começando a me preocupar.
Eu estava em um lugar que parecia uma cozinha, como aquelas usadas para se fazer pães e pizzas. Havia certa semelhança com a fornalha, e a pessoa que falava comigo, sem duvida era o açougueiro, só que agora eu sabia o que estava por tras de todo o sangue.
- Tive tanto trabalho para preparar você esses últimos dias, você morrer teria sido um desperdício, afinal não da para lidar com a carne se ela já estiver podre.
- Burton – sussurrei – o que você esta fazendo?
- Lamento muito por tudo isso Jensen, mas você sabe como é, negócios são negócios, e meu patrão já estava impaciente para uma nova remessa, afinal ele precisa alimentar o bichinho dele.
- Você me drogou, vem me drogando desde que começaram os pesados. Fez o mesmo com o Stu.
- Muito bem Jensen, é. Para alguém grogue você esta pensando direitinho.
- Por quê?
- Bem os órgãos dão um bom preço no mercado e meu empregador paga muito bem pelo que sobra.
Terror, não há palavra melhor do que essa para descrever o que sinto agora. Olhei por todos os lados, em meu desespero, tentando achar um jeito de me libertar enquanto ele ria de mim.
- Você é engraçado Jensen, mas não adianta brigar...
Meus olhos seguiram até uma caixa no chão próxima de mim. Era idêntica a caixa do pesadelo e o que estava nela... Não era possível...
Burton puxou minha cabeça e me fez olhar para ele.
- Logo, logo caro amigo vai estar igual ao Stu. Você também vai virar fruta.
!!!


Vou comentar que ficou incrível!
ResponderExcluirVou responder dizendo... Eu sei!
ExcluirObrigado, obrigado, muito obrigado!
Mais que macabro
ResponderExcluirhehehehe!
Uma apreciador! Fabuloso, talvez deseje experimentar uma das frutas, o que me diz?
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