Gaslight - livro I
Capítulo II: Inebriado
[Amostra]
Graças
a essas lembranças meus tremores internos estavam começando a se acalmar, a
calmaria antes da tempestade.
- Não acha maravilhoso
doutor? Uma chance de viver algo parecido com o que eu vivi nesse dia? Mesmo
com o que vem depois? – perguntei
indiferente a resposta.
- Amor, paixão, um belo
início de uma história – Dr. Emmerich encarava-me enquanto eu mal o olhava.
- É, tem razão, mas vou
deixar que tire suas conclusões depois.
- Era isso que queria me
contar? Uma história? – a ironia vinda
das palavras dele me irritou profundamente, mas não me deixei alterar.
- Não doutor, não quero
te contar uma história, quero te mostrar minhas lembranças – ele calou-se – Então, pronto para o
segundo ato?
- Alguma razão em
especial para não estar?
- Calma Doutor, esta
cedo ainda, não perca a paciência. Tenho a impressão de que vai acabar se
interessando pelo que vou contar a você.
- Então estamos pronto
Sr. Silent.
- Ah sim Doutor,
estamos sim – sorri.
***
Ficamos juntos até que a escuridão tomasse
conta do céu, sendo cortada apenas pelas luzes das estrelas. A lua não
aparecia, provavelmente lua nova, e isso deixava-nos completamente sós.
Cada vez que minhas mãos percorriam sua
frágil e delicada pele eu a sentia arrepiar. Toquei cada parte do seu corpo com
meus lábios, me deleitando com o gosto de seu corpo, deixando-me guiar pelo seu
cheiro, fechei os olhos.
Amamo-nos por horas, bem devagar, com todo
carinho, todas às vezes com ela eram como a primeira para mim, ela me
despertava o desejo de cuidar, como se fosse uma frágil boneca de cristal que
precisava ser amada e preservada minuciosamente ou se partiria.
Quando finalmente cansei, afinal de contas
não sou de metal, abracei-a gentilmente, deitei minha cabeça relaxadamente em
seus seios, respirando seu perfume, e lá fiquei, sem nem mesmo abrir os olhos.
Ela retribuiu o carinho, me aconchegando contra si, acariciando meus cabelos e
minhas costas. Adormeci e provavelmente ela também. Não saímos daquela posição
por algum tempo.
Já devia ser bem tarde, madrugada adentro,
quando acordei, Sandra dormia, ainda me abraçando, tive que tomar cuidado para
não acordá-la ao me levantar. Desci as escadas, na geladeira o pouco de comida
que tínhamos comprado durante a viagem e água, nada além. Fui até a porta na
cozinha que levava a saída dos fundos e tranquei-a enquanto tomava meu copo
d’água, logo em seguida foi a vez da porta da frente. Admito ter sido
descuidado e não ter feito algo tão básico como trancar as coisas mais cedo
essa mesma noite e também reconheço o fato de ser meio assustador estar numa
cabana no meio da floresta. Salvo engano aqui tem telefone e trouxemos os
celulares, mas quanto tempo levaria para alguém fazer algo se invadissem a
casa? Era o lado mais assustador dessa viagem, infelizmente se o medo nos
paralisasse de que adiantaria viajar para um lugar assim? O medo é inimigo dos
desejos e da evolução, por mais que ele seja difícil de enfrentar é sempre
necessário fazê-lo. Entretanto não faz sentido ficar pensando nisso, tudo
estava indo bem, essa lua de mel era exatamente o que precisávamos.
Apaguei as luzes do andar inferior e voltei
ao quarto, onde deixei-nos cobrir completamente pelo manto da noite,
acomodei-me ao lado dela e dormi, dessa vez profundamente, numa certa paz que
eu não tinha desde quando era jovem, ou desde quando comecei a namorar com essa
mulher, e logo depois no início do casamento, não que houvessem mal estares
nele, para falar a verdade minha vida com Sandra era a melhor parte em tudo que
tinha, era o que me aliviava do trabalho, dos amigos e dos rivais também, do
estresse, da preocupação, de tudo. Era como viver com uma adolescente viva e ao
mesmo tempo muito adulta. Foi exatamente com isso que sonhei, com ela, quando
jovem. Não posso afirmar exatamente que a conheci nessa época, mas sinto como
se tivesse conhecido, por algo além de fotografias, posso ver nela algo
mortalmente lindo e poderoso.
Em meu sonho ela usava vermelho, sentada em
algum lugar, eu não sabia onde, era jovem às vezes, e em outras exatamente como
é agora, uma grande rainha, fabulosa, sexy e forte, determinada. Tenho
praticamente certeza de que despertei suavemente, excitado pelo sonho, envolvi
o seio dela em minha boca e o suguei, o gemido agudo que ela deu também não em
pareceu coisa de sonho.
Na manhã seguinte o chão estava ainda mais
coberto pela folhagem cor de areia, mas era curioso que, apesar da estação, o
verde ainda fosse dominante na copa das árvores aqui no alto da colina,
diferente do que fora no caminho para cá.
Minha imagem refletia na parede externa do
quarto, que era basicamente feita de vidro. Por um segundo era como me sentir
dentro de um espelho, refletido, enxergando a mim mesmo, curioso e esquisito.
- Melhor me arrumar –
falei a mim mesmo, e assim fui fazê-lo.
Sandra estava cozinhando, usando apenas um
avental, sorriu ao ver-me descer as escadas, mas não olhou diretamente para
mim.
- Ah meu Deus do céu,
assim não resisto até o fim das férias – brinquei.
- Nem pense nisso, você
precisa estar muito resistente e bem vivo– ela não parava de sorrir.
- Se não o que? –
provoquei.
- Te castigo.
- Isso é uma ameaça ou
uma promessa? – abracei-a por trás e beijei-lhe o pescoço.
- Depende, o que vai
lhe deixar com mais tesão?
- Ah sua... – girei-a
para mim e beijei aquele rosto sorridente com toda paixão.
Ela ergueu os braços e suavemente desceu-os
até meu pescoço, depois suas mãos correram por meus cabelos, apertando-os
violentamente enquanto retribuía o beijo, gemendo aos poucos cada vez que
jogava seu corpo contra o meu.
- Me deixe cozinha
John, ou vamos acabar passando fome hoje – sua voz estava leve e recheada de
prazer.
- Tem certeza que quer
que eu pare? – beijei e mordisquei seu pescoço.
- Deixo você fazer o
que quiser comigo depois.
- Tudo bem, mas não
ouse tirar esse avental, ou por qualquer outra peça de roupa.
- Como quiser – ela
beijou-me, deu meia volta e tornou ao seu afazer.
Afastei-me relutante, pegando apenas um copo
de café e levando-o comigo.
Fui a parte da frente da casa, o outono
vingava, sentei-me ao pé da escadinha de três degraus logo na entrada, assoprei
o café ainda quente e senti a brisa fria bater contra meu peito, coberto apenas
por uma blusa branca de algodão que, somando as calças de pijama, pouco me
protegia do frio da manhã. Não devia passar das oito horas e apenas os locais
onde os raios de sol atingiam por entre as nuvens eram mais aquecidos.
Respirei aquela brisa por um segundo,
bebericando o liquido quente, muito bem vindo nesse momento. Era realmente uma
cena e tanto, apenas de minha mente ainda estar na bunda daquela linda mulher
na cozinha.
Pelo que posso me lembrar do momento em que
pesquisei sobre esse lugar, deve sem dúvida haver alguma coisa interessante
para se fazer. Não temos TV, então vamos ter que improvisar. Posso tentar a
internet mais tarde.
O vento frio da manhã começava a castigar minha
pele e o café já não era mais suficiente para me manter aquecido, acho que vou
ter que dar a Sandra mais trabalho em me despir.
Arrumei-me ao voltar para o quarto,
colocando uma roupa mais apropriada e voltei a cozinha, minha esposa estava no
banho, fui até a porta.
- Bom saber que você
não pretende cumprir sua promessa de ficar de avental.
- Sinto muito querido,
o frio esta grande demais.
- Tudo bem, vou dar um
jeito de te aquecer depois e a por outra vez naquele avental. Ouça, vou
aproveitar essa hora e vou dar uma olha nos arredores ok? Vou ficar perto,
grite se precisar de algo, ou corra feito uma desesperada atrás de mim.
- Pode deixar
engraçadinho – falou entre sorriso.
Uma vez do lado de fora precipitei-me pelas
trilhas que partiam do fundo da casa, eu poderia ter ido a cidade de carro, mas
queria evitar o contato com civilização o quanto pudesse por enquanto, além de
não achar seguro deixar minha esposa aqui sozinha.
O ar da montanha não me era familiar, não me
lembro de algum momento ter respirado do mesmo jeito que respiro aqui, a paz, a
calma, a tranqüilidade, tudo muito quieto, chega a ser assustador.
Desde pequeno sempre fui um garoto
solitário, principalmente na época da escola. Pode se dizer que eu era o clássico
nerd que apenas semelhantes se importam em manter contato. Eu andava sozinho ou
com poucos amigos ao meu lado, em geral era desprezado pelas outras pessoas da
minha turma, e as que não me desprezavam, me ignoravam.
Como em todo bom clichê eu era perdidamente
apaixonado pela garota mais linda da sala, Mayara, uma linda jovem de pele
branca, cabelos loiros acastanhados e olhos cor de mel. Entretanto, diferente
dos filmes, eu não acabei com a donzela no fim, ela nunca quis nada comigo e
dificilmente hoje seria diferente, diferente da Sandra, Mayara se deixava levar
pelas aparências e não pelos sentimentos, ao menos eu criei essa resposta para
mim mesmo. Não sei exatamente porque me lembrei disso agora, mas não pude
evitar.
Lembro-me também que sonhava em viver num
lugar só meu, uma cidade que apenas eu morasse com a minha solidão, talvez um
cachorro como companhia? Ou quem sabe uma mulher futuramente, mas eu e apenas
eu no geral, uma cidade vazia, silenciosa, parecida comigo. Sempre gostei da
calmaria e do silêncio, estando nesse lugar, é como voltar a sentir o que eu
sempre senti quando jovem.
Com certeza eu nasci na família certa,
Silent é um sobrenome que realmente combina comigo. Meu pai, Ener Silent, vivia
mais para o trabalho do que para a família, mas não era um pai ruim. Minha mãe,
Evangeline Silent, era uma excelente mulher, companheira, compreensiva e educadora.
Apesar de gostar de uma festa ela, assim como meu pai, eram pessoas bem
quietas, por isso não estranho meu jeito de ser, mas não posso negar que sempre
desejei ser diferente de como eu era, ao menos em certos momentos eu achava que
ser mais parecido com os outros me tornaria mais feliz, se alguém me dissesse
naquela época que eu acabaria casado com uma sexy e linda mulher, que poderia
ser descrita como o ápice da compreensão e do carinho, eu com certeza acabaria
rindo demais.
Comecei a aproveitar mais a vida, fora do videogame, só depois dos
dezesseis anos e com dezenove comecei a trabalhar, o que significou uma boa
perda de liberdade, foi só aos vinte e dois que conheci Sandra, numa feira para
exposição de tecnologia, ela palestrava pela área de saúde e eu estava lá.
Agora não passo de um velho de apenas 26 anos de idade, casado com uma menina
de 26 anos de idade.
Meu passeio fora produtivo para minha mente
e lembranças, mas não para minha imaginação. Tudo era muito igual, e não tive
inspiração para nada, além de sexo.
Retornei a casa, era quase dez e meia, nem
notei que havia passado todo esse tempo. Fui direto para o banheiro, lavei o
rosto. As cicatrizes das espinhas severas que tive na adolescência ainda
teimavam em marcar meu rosto, mesmo sob a barba rala e o cabelo, sempre divido
ao meio e bem cortado. Demorei um pouco me olhando no espelho, eu tinha essa
mania.
Quando deixei o banho fui pego por uma
surpresa monumental, ela continuava de avental.
- Vai ficar só de
avental mesmo? Não tem medo do que posso fazer com você se continuar assim? –
puxei-a para junto de mim.
- Não era você que me
faria vesti-lo quando em aquecesse?
- Bom, não foi na ordem
que eu esperava, mas ainda preciso aquecer você.
Não esperei a resposta para tomá-la em meus
braços e beijá-la apaixonadamente. Mais uma vez amei minha esposa, ali mesmo
onde estávamos. Ouvi-la gemer, deitada de baixo de mim em pleno chão no meio do
corredor, foi uma sensação que não pretendo esquecer nunca mais.
Depois de nos virarmos com o que tínhamos
para preparar o almoço resolvermos sair, juntos, para conhecer os arredores mais
distantes quando o sol estivesse mais fraco, já que deixá-la sozinha não era
uma opção, e foi justamente o que fizemos.
O vento
agora estava mais suave que pela manhã e o sol fazia contraste com a umidade da
floresta. Não nos afastamos demais para não acabarmos perdidos.
Segui um caminho diferente, outro que não o
que usei hoje cedo. A mata parecia calma e aliviada com a nossa presença, como
se não fossemos estranhos no lugar. Conversamos sobre diversas coisas no
caminho e senti a inclinação para mais uma vez amá-la ali mesmo, no meio do
mato. Acabei deixando minha ideia se perder quando chegamos a um ponto aberto
na trilha, ela foi a primeira a perceber o grande lago a nossa frente, nunca
imaginei que houvesse um lago ali.
- Nossa que lindo, será
que tem problema entrarmos? – ela perguntou chegando próxima a beirada.
- Não creio que haja,
mas você deveria ter cuidado, pode ser fundo – alertei-a.
- Querido é você de nós
dois que tem problemas com água não eu.
- Do que está falando?
Eu sei nadar só não acho seguro.
- Eis o ponto – ela
piscou para mim – você é sempre muito cuidadoso com tudo, não era para nos
divertimos?
Eu não disse nada, afinal ela tinha razão.
- Deveria ouvir seu
marido – uma terceira voz nos acompanhou.
Nos viramos rapidamente, assustados, para
ver quem havia dito aquilo. Um velho usando um macacão azul e boné nos
encarava, muito magro e com uma voz bem rouca.
- Não é seguro se
arriscar por aqui – ele se aproximou mais, não recuei.
- Quem é o senhor? –
perguntei.
- Meu nome é Bronx, eu
cuido da represa aqui – ele apontou para um prédio grande e acinzentado atrás
dele, eu não havia notado que aquilo estiva ali– é daqui que tiramos a energia
elétrica da cidade.
- Isso explica o lago –
falei comigo mesmo, minha esposa veio até mim – é um prazer Sr. Bronx, sou John
Silent e essa é minha esposa Sandra.
- Como eu disse não é
seguro se arriscar por aqui – ele parecia nervoso, o que poderíamos ter feito
para irritar?
- O lago não é seguro?
– segurei Sandra pela mão, eu não estava confortável a ponto de deixá-la longe
de mim, e ela parecia sentir-se do mesmo jeito.
- Eu não falava apenas
do lago – fiquei esperando ele dizer algo mais, nada veio porém.
Por alguma razão parecia que ele estava nos
ameaçando.
- Tudo bem, vamos
voltar...
- Espero mesmo que
façam isso – interrompeu-me.
Antes que eu pudesse dizer qualquer outra coisa,
se é que eu queria dizer algo, ele deu as costas e voltou em direção a represa.
- Que homem esquisito –
ela parecia assustada ao falar.
- Todos esses velhos
que vivem isolados são, por via das dúvidas vou ficar de olho – tentei tranqüilizá-la
– vem, vamos para casa.
Demorou um tempo depois que voltamos para
Sandra voltar a falar comigo, ela provavelmente havia se assustado com aquele
velho, eu também não gostei nada da maneira como ele falou conosco, mas creio
não ser para tanto.
- Tudo bem amor? –
perguntei, tentando fazê-la falar.
- Claro, está tudo bem.
Mas esse foi o fim de minha tentativa, seu
humor havia ido pelos ares e eu parecia pouco capaz de trazê-lo de volta, e se
a conheço bem acabaria piorando a situação do que ajudando.
Quando a noite caiu fomos nos deitar, sem
muito papo hoje. Por um instante achei que ela pudesse estar chateada comigo,
afinal, fora eu que nos trouxe para esse lugar, contudo era possível ela reagir
desse jeito apenas por isso? Culpar-me de algo? Não, estou imaginando coisas,
acho melhor eu ir dormir de uma vez.
!!!


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