Amostra III: Gaslight Cap II - Inebriado



   



Gaslight - livro I

Capítulo II: Inebriado


 [Amostra]

   Graças a essas lembranças meus tremores internos estavam começando a se acalmar, a calmaria antes da tempestade.
- Não acha maravilhoso doutor? Uma chance de viver algo parecido com o que eu vivi nesse dia? Mesmo com o que vem depois? – perguntei indiferente a resposta.
- Amor, paixão, um belo início de uma história – Dr. Emmerich encarava-me enquanto eu mal o olhava.
- É, tem razão, mas vou deixar que tire suas conclusões depois.
- Era isso que queria me contar? Uma história? – a ironia vinda das palavras dele me irritou profundamente, mas não me deixei alterar.
- Não doutor, não quero te contar uma história, quero te mostrar minhas lembranças – ele calou-se – Então, pronto para o segundo ato?
- Alguma razão em especial para não estar?
- Calma Doutor, esta cedo ainda, não perca a paciência. Tenho a impressão de que vai acabar se interessando pelo que vou contar a você.
- Então estamos pronto Sr. Silent.
- Ah sim Doutor, estamos sim – sorri.
***
   Ficamos juntos até que a escuridão tomasse conta do céu, sendo cortada apenas pelas luzes das estrelas. A lua não aparecia, provavelmente lua nova, e isso deixava-nos completamente sós.
   Cada vez que minhas mãos percorriam sua frágil e delicada pele eu a sentia arrepiar. Toquei cada parte do seu corpo com meus lábios, me deleitando com o gosto de seu corpo, deixando-me guiar pelo seu cheiro, fechei os olhos.
   Amamo-nos por horas, bem devagar, com todo carinho, todas às vezes com ela eram como a primeira para mim, ela me despertava o desejo de cuidar, como se fosse uma frágil boneca de cristal que precisava ser amada e preservada minuciosamente ou se partiria.
   Quando finalmente cansei, afinal de contas não sou de metal, abracei-a gentilmente, deitei minha cabeça relaxadamente em seus seios, respirando seu perfume, e lá fiquei, sem nem mesmo abrir os olhos. Ela retribuiu o carinho, me aconchegando contra si, acariciando meus cabelos e minhas costas. Adormeci e provavelmente ela também. Não saímos daquela posição por algum tempo.
   Já devia ser bem tarde, madrugada adentro, quando acordei, Sandra dormia, ainda me abraçando, tive que tomar cuidado para não acordá-la ao me levantar. Desci as escadas, na geladeira o pouco de comida que tínhamos comprado durante a viagem e água, nada além. Fui até a porta na cozinha que levava a saída dos fundos e tranquei-a enquanto tomava meu copo d’água, logo em seguida foi a vez da porta da frente. Admito ter sido descuidado e não ter feito algo tão básico como trancar as coisas mais cedo essa mesma noite e também reconheço o fato de ser meio assustador estar numa cabana no meio da floresta. Salvo engano aqui tem telefone e trouxemos os celulares, mas quanto tempo levaria para alguém fazer algo se invadissem a casa? Era o lado mais assustador dessa viagem, infelizmente se o medo nos paralisasse de que adiantaria viajar para um lugar assim? O medo é inimigo dos desejos e da evolução, por mais que ele seja difícil de enfrentar é sempre necessário fazê-lo. Entretanto não faz sentido ficar pensando nisso, tudo estava indo bem, essa lua de mel era exatamente o que precisávamos.
   Apaguei as luzes do andar inferior e voltei ao quarto, onde deixei-nos cobrir completamente pelo manto da noite, acomodei-me ao lado dela e dormi, dessa vez profundamente, numa certa paz que eu não tinha desde quando era jovem, ou desde quando comecei a namorar com essa mulher, e logo depois no início do casamento, não que houvessem mal estares nele, para falar a verdade minha vida com Sandra era a melhor parte em tudo que tinha, era o que me aliviava do trabalho, dos amigos e dos rivais também, do estresse, da preocupação, de tudo. Era como viver com uma adolescente viva e ao mesmo tempo muito adulta. Foi exatamente com isso que sonhei, com ela, quando jovem. Não posso afirmar exatamente que a conheci nessa época, mas sinto como se tivesse conhecido, por algo além de fotografias, posso ver nela algo mortalmente lindo e poderoso.
   Em meu sonho ela usava vermelho, sentada em algum lugar, eu não sabia onde, era jovem às vezes, e em outras exatamente como é agora, uma grande rainha, fabulosa, sexy e forte, determinada. Tenho praticamente certeza de que despertei suavemente, excitado pelo sonho, envolvi o seio dela em minha boca e o suguei, o gemido agudo que ela deu também não em pareceu coisa de sonho.
   Na manhã seguinte o chão estava ainda mais coberto pela folhagem cor de areia, mas era curioso que, apesar da estação, o verde ainda fosse dominante na copa das árvores aqui no alto da colina, diferente do que fora no caminho para cá.
   Minha imagem refletia na parede externa do quarto, que era basicamente feita de vidro. Por um segundo era como me sentir dentro de um espelho, refletido, enxergando a mim mesmo, curioso e esquisito.
- Melhor me arrumar – falei a mim mesmo, e assim fui fazê-lo.
   Sandra estava cozinhando, usando apenas um avental, sorriu ao ver-me descer as escadas, mas não olhou diretamente para mim.
- Ah meu Deus do céu, assim não resisto até o fim das férias – brinquei.
- Nem pense nisso, você precisa estar muito resistente e bem vivo– ela não parava de sorrir.
- Se não o que? – provoquei.
- Te castigo.
- Isso é uma ameaça ou uma promessa? – abracei-a por trás e beijei-lhe o pescoço.
- Depende, o que vai lhe deixar com mais tesão?
- Ah sua... – girei-a para mim e beijei aquele rosto sorridente com toda paixão.
   Ela ergueu os braços e suavemente desceu-os até meu pescoço, depois suas mãos correram por meus cabelos, apertando-os violentamente enquanto retribuía o beijo, gemendo aos poucos cada vez que jogava seu corpo contra o meu.
- Me deixe cozinha John, ou vamos acabar passando fome hoje – sua voz estava leve e recheada de prazer.
- Tem certeza que quer que eu pare? – beijei e mordisquei seu pescoço.
- Deixo você fazer o que quiser comigo depois.
- Tudo bem, mas não ouse tirar esse avental, ou por qualquer outra peça de roupa.
- Como quiser – ela beijou-me, deu meia volta e tornou ao seu afazer.
   Afastei-me relutante, pegando apenas um copo de café e levando-o comigo.
   Fui a parte da frente da casa, o outono vingava, sentei-me ao pé da escadinha de três degraus logo na entrada, assoprei o café ainda quente e senti a brisa fria bater contra meu peito, coberto apenas por uma blusa branca de algodão que, somando as calças de pijama, pouco me protegia do frio da manhã. Não devia passar das oito horas e apenas os locais onde os raios de sol atingiam por entre as nuvens eram mais aquecidos.
   Respirei aquela brisa por um segundo, bebericando o liquido quente, muito bem vindo nesse momento. Era realmente uma cena e tanto, apenas de minha mente ainda estar na bunda daquela linda mulher na cozinha.
   Pelo que posso me lembrar do momento em que pesquisei sobre esse lugar, deve sem dúvida haver alguma coisa interessante para se fazer. Não temos TV, então vamos ter que improvisar. Posso tentar a internet mais tarde.
   O vento frio da manhã começava a castigar minha pele e o café já não era mais suficiente para me manter aquecido, acho que vou ter que dar a Sandra mais trabalho em me despir.
   Arrumei-me ao voltar para o quarto, colocando uma roupa mais apropriada e voltei a cozinha, minha esposa estava no banho, fui até a porta.
- Bom saber que você não pretende cumprir sua promessa de ficar de avental.
- Sinto muito querido, o frio esta grande demais.
- Tudo bem, vou dar um jeito de te aquecer depois e a por outra vez naquele avental. Ouça, vou aproveitar essa hora e vou dar uma olha nos arredores ok? Vou ficar perto, grite se precisar de algo, ou corra feito uma desesperada atrás de mim.
- Pode deixar engraçadinho – falou entre sorriso.
   Uma vez do lado de fora precipitei-me pelas trilhas que partiam do fundo da casa, eu poderia ter ido a cidade de carro, mas queria evitar o contato com civilização o quanto pudesse por enquanto, além de não achar seguro deixar minha esposa aqui sozinha.
   O ar da montanha não me era familiar, não me lembro de algum momento ter respirado do mesmo jeito que respiro aqui, a paz, a calma, a tranqüilidade, tudo muito quieto, chega a ser assustador.
   Desde pequeno sempre fui um garoto solitário, principalmente na época da escola. Pode se dizer que eu era o clássico nerd que apenas semelhantes se importam em manter contato. Eu andava sozinho ou com poucos amigos ao meu lado, em geral era desprezado pelas outras pessoas da minha turma, e as que não me desprezavam, me ignoravam.
   Como em todo bom clichê eu era perdidamente apaixonado pela garota mais linda da sala, Mayara, uma linda jovem de pele branca, cabelos loiros acastanhados e olhos cor de mel. Entretanto, diferente dos filmes, eu não acabei com a donzela no fim, ela nunca quis nada comigo e dificilmente hoje seria diferente, diferente da Sandra, Mayara se deixava levar pelas aparências e não pelos sentimentos, ao menos eu criei essa resposta para mim mesmo. Não sei exatamente porque me lembrei disso agora, mas não pude evitar.
   Lembro-me também que sonhava em viver num lugar só meu, uma cidade que apenas eu morasse com a minha solidão, talvez um cachorro como companhia? Ou quem sabe uma mulher futuramente, mas eu e apenas eu no geral, uma cidade vazia, silenciosa, parecida comigo. Sempre gostei da calmaria e do silêncio, estando nesse lugar, é como voltar a sentir o que eu sempre senti quando jovem.
   Com certeza eu nasci na família certa, Silent é um sobrenome que realmente combina comigo. Meu pai, Ener Silent, vivia mais para o trabalho do que para a família, mas não era um pai ruim. Minha mãe, Evangeline Silent, era uma excelente mulher, companheira, compreensiva e educadora. Apesar de gostar de uma festa ela, assim como meu pai, eram pessoas bem quietas, por isso não estranho meu jeito de ser, mas não posso negar que sempre desejei ser diferente de como eu era, ao menos em certos momentos eu achava que ser mais parecido com os outros me tornaria mais feliz, se alguém me dissesse naquela época que eu acabaria casado com uma sexy e linda mulher, que poderia ser descrita como o ápice da compreensão e do carinho, eu com certeza acabaria rindo demais.
   Comecei a aproveitar mais a vida, fora do videogame, só depois dos dezesseis anos e com dezenove comecei a trabalhar, o que significou uma boa perda de liberdade, foi só aos vinte e dois que conheci Sandra, numa feira para exposição de tecnologia, ela palestrava pela área de saúde e eu estava lá. Agora não passo de um velho de apenas 26 anos de idade, casado com uma menina de 26 anos de idade.
   Meu passeio fora produtivo para minha mente e lembranças, mas não para minha imaginação. Tudo era muito igual, e não tive inspiração para nada, além de sexo.
   Retornei a casa, era quase dez e meia, nem notei que havia passado todo esse tempo. Fui direto para o banheiro, lavei o rosto. As cicatrizes das espinhas severas que tive na adolescência ainda teimavam em marcar meu rosto, mesmo sob a barba rala e o cabelo, sempre divido ao meio e bem cortado. Demorei um pouco me olhando no espelho, eu tinha essa mania.
   Quando deixei o banho fui pego por uma surpresa monumental, ela continuava de avental.
- Vai ficar só de avental mesmo? Não tem medo do que posso fazer com você se continuar assim? – puxei-a para junto de mim.
- Não era você que me faria vesti-lo quando em aquecesse?
- Bom, não foi na ordem que eu esperava, mas ainda preciso aquecer você.
   Não esperei a resposta para tomá-la em meus braços e beijá-la apaixonadamente. Mais uma vez amei minha esposa, ali mesmo onde estávamos. Ouvi-la gemer, deitada de baixo de mim em pleno chão no meio do corredor, foi uma sensação que não pretendo esquecer nunca mais.
   Depois de nos virarmos com o que tínhamos para preparar o almoço resolvermos sair, juntos, para conhecer os arredores mais distantes quando o sol estivesse mais fraco, já que deixá-la sozinha não era uma opção, e foi justamente o que fizemos.
  O vento agora estava mais suave que pela manhã e o sol fazia contraste com a umidade da floresta. Não nos afastamos demais para não acabarmos perdidos.
   Segui um caminho diferente, outro que não o que usei hoje cedo. A mata parecia calma e aliviada com a nossa presença, como se não fossemos estranhos no lugar. Conversamos sobre diversas coisas no caminho e senti a inclinação para mais uma vez amá-la ali mesmo, no meio do mato. Acabei deixando minha ideia se perder quando chegamos a um ponto aberto na trilha, ela foi a primeira a perceber o grande lago a nossa frente, nunca imaginei que houvesse um lago ali.
- Nossa que lindo, será que tem problema entrarmos? – ela perguntou chegando próxima a beirada.
- Não creio que haja, mas você deveria ter cuidado, pode ser fundo – alertei-a.
- Querido é você de nós dois que tem problemas com água não eu.
- Do que está falando? Eu sei nadar só não acho seguro.
- Eis o ponto – ela piscou para mim – você é sempre muito cuidadoso com tudo, não era para nos divertimos?
   Eu não disse nada, afinal ela tinha razão.
- Deveria ouvir seu marido – uma terceira voz nos acompanhou.
   Nos viramos rapidamente, assustados, para ver quem havia dito aquilo. Um velho usando um macacão azul e boné nos encarava, muito magro e com uma voz bem rouca.
- Não é seguro se arriscar por aqui – ele se aproximou mais, não recuei.
- Quem é o senhor? – perguntei.
- Meu nome é Bronx, eu cuido da represa aqui – ele apontou para um prédio grande e acinzentado atrás dele, eu não havia notado que aquilo estiva ali– é daqui que tiramos a energia elétrica da cidade.
- Isso explica o lago – falei comigo mesmo, minha esposa veio até mim – é um prazer Sr. Bronx, sou John Silent e essa é minha esposa Sandra.
- Como eu disse não é seguro se arriscar por aqui – ele parecia nervoso, o que poderíamos ter feito para irritar?
- O lago não é seguro? – segurei Sandra pela mão, eu não estava confortável a ponto de deixá-la longe de mim, e ela parecia sentir-se do mesmo jeito.
- Eu não falava apenas do lago – fiquei esperando ele dizer algo mais, nada veio porém.
   Por alguma razão parecia que ele estava nos ameaçando.
- Tudo bem, vamos voltar...
- Espero mesmo que façam isso – interrompeu-me.
   Antes que eu pudesse dizer qualquer outra coisa, se é que eu queria dizer algo, ele deu as costas e voltou em direção a represa.
- Que homem esquisito – ela parecia assustada ao falar.
- Todos esses velhos que vivem isolados são, por via das dúvidas vou ficar de olho – tentei tranqüilizá-la – vem, vamos para casa.
   Demorou um tempo depois que voltamos para Sandra voltar a falar comigo, ela provavelmente havia se assustado com aquele velho, eu também não gostei nada da maneira como ele falou conosco, mas creio não ser para tanto.
- Tudo bem amor? – perguntei, tentando fazê-la falar.
- Claro, está tudo bem.
   Mas esse foi o fim de minha tentativa, seu humor havia ido pelos ares e eu parecia pouco capaz de trazê-lo de volta, e se a conheço bem acabaria piorando a situação do que ajudando.
   Quando a noite caiu fomos nos deitar, sem muito papo hoje. Por um instante achei que ela pudesse estar chateada comigo, afinal, fora eu que nos trouxe para esse lugar, contudo era possível ela reagir desse jeito apenas por isso? Culpar-me de algo? Não, estou imaginando coisas, acho melhor eu ir dormir de uma vez.

!!! 

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