Titulo: Aguaceiro
Autor: John Doe
Anfitrião: James L Flinders
Categoria:
AdultoAnfitrião: James L Flinders
Arquivo: Relatos "New Perrish" # 1
Relatos#
“New Perrish”
James L. Flinders
John Doe
John Doe
I - Aguaceiro
Está
muito frio. Sempre achei que, quando corresse por minha vida, mesmo que nu no
Alaska ainda assim não sentiria frio, mas senti. Não sei dizer ao certo de onde
veio tudo aquilo, eu não queria nada disso.
A chuva estava cruel, minhas roupas pesadas
e sempre que acho que encontrei um lugar para tentar me acalmar algo acontece.
Estou tremendo e todo encolhido num canto de um apartamento que eu nunca vi na
vida. Tenho medo de sair, tenho medo de me mover. Se fosse possível, eu
evitaria até respirar, pois eles podem estar me ouvindo.
Nem sei por que tanta coisa passa na minha
cabeça agora, porque estou repetindo as palavras que sei que estou repetindo,
essa retrospectiva que só me faz perceber o quanto eu afundei em tão pouco
tempo.
Estava a caminho de minha casa numa cidade
próxima ao litoral do Pacífico. Atravessando de carro pelo centro do país. Era
tarde, em meio à madrugada, e meus olhos já começavam a me pregar peças. Não
havia um único local meramente semelhante a uma hospedaria em quilômetros.
Acabei por estacionar o carro no encostamento a direita da avenida, ajeitei-me
no banco traseiro, tendo certeza de trancar bem o carro e deixar pequenas
frestas nas janelas para não sufocar, por fim deitei-me para descansar, era por
volta de 01h30min.
Tive a impressão de ter dormido por horas,
até ser abruptamente acordado pelo som de um caminhão passando apressado pela
estrada.
- Mas que porra?
Não sei dizer se falei aquilo por causa do
barulho ou da luz inesperada que atingira meus olhos em cheio. Havia uma
espécie de clube do outro lado da avenida, parecia rústico.
- Devo estar sonhando.
Quando deitei estava no meio do nada, sem
sinal de vida, agora acordo com isso surgido do nada? Com mil demônios, o que
foi que aconteceu? Olhei para o relógio, 01h31min.
Deixei o veiculo e atravessei a avenida
até alcançar a porta do lugar. Não havia carros em volta, ou mesmo barulho lá
dentro. A porta estava aberta e o clube estava vazio. Ao menos estava quente.
Uma vez lá dentro meu corpo se aqueceu, uma
sensação morna, terna, acabei relaxando. O lugar estava às moscas, se as luzes
estivessem apagadas quando estacionei o carro era bem provável que eu não o
enxergasse. Sem sono ou pressa, resolvi dar uma olhada. O palco para as
dançarinas estava vazio, mas o microfone ainda estava lá, bebidas enfeitavam a
parede por trás do balcão e as mesas estavam vazias.
Esticando-me fui capaz de alcançar uma
garrafa de vodka. Agarrei um dos copos e me servi. Era certo que havia alguém
ali, afinal alguém tinha de ascender às luzes.
- Estou me servindo! –
gritei para ver se alguém me respondia por trás da porta além do balcão.
- Eu sei, não precisa
gritar.
- Uhnnn – engasguei com
a bebida e comecei a tossir, o velho deu-me umas pancadas nas costas.
- Vê se não morre ai
ein, já perdi clientes o bastante.
- Você me assustou – me
esforcei para falar sem engasgar novamente.
- Sou tão feio assim?
- Não, quer dizer isso
também, mas é que você surgiu do nada.
Ele começou a gargalhar, na verdade esse
velho parecia mais uma velha. Usava chapéu e roupas de peão, country devia ser
o tema desse bar dançante, era velho, extremamente magro e enrugado, mas seus
dentes eram brancos, perfeitos e reais, isso dava para notar.
- Você é sincero
garoto, tenho que admitir. Não te jogo para fora porque é o único cliente
pagante que tenho.
Acabei por não dando muita importância ao
velho e apenas voltei a beber, mas ele continuou falando.
- Desde que o maldito
Tod resolveu roubar meus fregueses e aquela maldita casa de diversão no centro
roubou meus cantores eu sempre acabo aqui as moscas. Não fosse a garota negra
medrosa quem vem aqui cantar de vez em quando ninguém mais viria ao meu bar.
- Posso imaginar – o
lugar era uma pocilga afinal.
Ele enfiou a mão no bolso da camisa e
retirou uma fotografia, tinha aspecto gasto, mas pela cara que ele possuía ali,
não tinha tanto tempo assim. Foi a segunda vez que quase engasguei.
- Quem são? –
perguntei.
- Minhas filhas. Esta
quase absurdo de sustentar com esse negócio falido.
Eram trigêmeas, extremamente sensuais, e não
deviam ter mais de 16 anos.
- Elas estão por aqui?
- Não, foram visitar só
Deus sabe quem na maldita cidade.
Fiz um lembrete mental, se parar nessa
cidade, procurar as gostosinhas.
- Falando nisso, qual o
nome da cidade?
-
New Perrish, belo nome não concorda? Apesar que moderno demais para o meu
gosto.
Outro silencioso do
inferno. O homem entrou sem fazer o mínimo barulho e veio andando em nossa
direção. Usava uma espécie de casaco comprido surrado e desbotado, cabelos
emaranhados escorriam até a base do pescoço, a barba por fazer não lhe escondia
um largo sorriso, por alguma razão ele me deu arrepios.
-
Boa noite Manny – disse ao sentar-se ao meu lado.
- James.
-
E você é? – dirigiu-se a mim.
- Conroy – ele apertou
minha mão e o arrepio retornou.
-
O que faz por aqui? – o estranho chamado James, serviu-se
com um Scott.
- Passagem, vou para o
litoral.
- Lindo nessa época do
ano – disse o bartender, Manny, se entendi bem seu nome.
-
Hum! Interessante, espero que aproveite sua estadia em nossa cidade, por mais
breve que ela possa ser – o estranho virou-se para o balcão e
segurou a foto de Manny e suas filhas –
Sempre exibindo suas garotas não é?
- Qual pai não o faria?
– disse o velho rangendo os dentes.
-
Tem toda razão. Você tem filhos Conroy?
- Não, solteiro e sem
filhos.
-
Uma pena, ou talvez não – ele sorriu um pouco alto, além da
conta – Eu, por exemplo, tenho filhos, e já
que Manny andou exibindo os dele, talvez eu possa fazer o mesmo.
Ele retirou uma
fotografia de uma bela jovem, por volta dos vinte e poucos, com cabelos negros
e pele clara, era linda, mas não parecia em nada com ele, sem contar que esse
homem não parecia ter mais que quarenta, teria sido pai assim tão jovem?
- Muito bonita.
- Mantê-las
esta cada vez mais difícil hoje em dia.
- Nem me diga –
resmungou Manny.
Para mim já deu com esses caipiras.
- Bem eu vou andando –
coloquei o dinheiro sobre o balcão e sai. Manny acenou com a cabeça e o outro
sorriu.
-
Ah Conroy! – chamou-me o tal James, quando eu já estava para
abrir a porta de saída – É melhor se
agasalhar bem, parece quem vem um aguaceiro por ai!
Eu abri a porta e sai
sem lhe responder. Queria o quanto antes estar fora dali.
***
No segundo em que coloquei os pés porta
afora o breu bateu absoluto, tão forte quanto à chuva.
- Não me lembro de ter
ouvido o barulho de chuva enquanto estava...
Minhas palavras cessaram com o susto. Todo o
bar estava escuro. O letreiro, as lâmpadas, como se houvesse faltado luz.
Também não estou certo, mas olhando bem em volta agora esse lugar parecia num
estado bem melhor quando eu entrei do que agora.
- Isso esta ficando
muito esquisito – minha curiosidade era maior que meu receio.
Tentei retornar, porém a porta estava
trancada.
- Mas o que?
Forcei o trinco e nada. Revoltado, como tenho
a mania de ficar por qualquer bobagem, joguei meu corpo contra a porta por três
vezes até ouvi-la abrir com violência.
- Jesus, o que raios esta
rolando aqui?
O bar estava abandonado, completamente dessa
vez. As mesas estavam destruídas e imundas, o chão completamente empoeirado, as
cortinas rasgadas, no palco não havia nem mais o microfone, e as bebidas ou
estavam quebradas ou vazias.
- Mas que diabos? O que
porra é essa?
Caminhei até o lugar onde a menos de cinco
minutos eu havia divido bebidas com dois estranhos e havia uma cobertura de pó
intocada em todos os lugares onde eu mesmo havia estado.
- Será que estou
alucinando?
Fiquei preocupado, muito preocupado. Não sou
do tipo que acredita em fantasmas, mas que isso parecia uma puta história de
assombrações, isso parecia.
- Eu devo estar muito
cansado – repeti para mim mesmo tentando acreditar, mas não havia sono – ou
então sonhei com tudo isso. É, deve ter sido um sonho e nada mais.
Pouco antes de me retirar meus olhos se
fixaram em algo família. No balcão, por baixo de toda poeira havia duas
fotografias muito gastas. A primeira exibia três belas irmãs gêmeas juntas a
uma velha, ou velho, difícil dizer, a segunda exibia uma bela mulher de cabelos
escuros. Atrás desta havia um endereço escrito a mão.
“Rua Earl Blackgate, nº 172, AP 202 – New
Perrish”.
Senti uma forte dor na garganta. Não sei
dizer exatamente porque acabei levando as fotos comigo.
Deixei a espelunca abandonado o mais rápido
que consegui e retornei a meu carro. O motor ligou sem complicações e as
palhetas limparam o vidro para que eu pudesse enxergar. A chuva estava cada vez
mais pesada, o pouco que estive sob ela para chegar ao carro foi mais que o
bastante para confirmar, e não facilitava para dirigir.
Reduzi a velocidade o quanto pude, e
continuei seguindo pela avenida principal, o estranho é que todos os meus
relógios estavam com defeito, tanto o do painel do carro quanto o de pulso,
ambos marcavam 01h32min.
***
Aos poucos as cores do céu foram cedendo,
transfigurando-se de um marrom escuro para um cinza denso, todavia a chuva
parecia não ter qualquer intenção de dar trégua.
A estrada estava escorregadia, era difícil
manter o carro estável, especialmente nas curvas.
- Acho que ao menos
devo ser grato por não haver transito – resmunguei.
Para dizer a verdade, já fazia muito tempo
que nenhum outro carro passava por mim, ou alguém pedindo carona, nem mesmo o
vislumbre de alguma casa, vila ou fazenda.
- Meu Deus! – gritei quando algo se chocou
contra meu capo.
Fiquei prezo na visão pelo que me pareceu
uma eternidade, sem saber definir a linha entre o trauma e a ilusão por perder
o controle do carro, ou a realidade inacreditável da situação.
Uma garota de camisola branca estava
esmurrando o para-brisa. No calor do momento eu atingi uma árvore em cheio com
a lateral do veiculo.
Minhas mãos estavam tremendo, a mulher havia
desaparecido, mas seu sangue ainda manchava o vidro trincado. Consegui deixar o
carro com muita dificuldade, minhas costelas doíam muito e eu estava mancando
na perna esquerda.
- Ah droga, ah mais que
droga – tentei não chorar, mas acabei chorando.
Ouvi passos, o som dos pés afundando na lama
junto à voracidade da chuva. Minhas mandíbulas estavam batendo forte, de medo e
frio, e só piorava enquanto a menina caminhava em minha direção. Sua mão estava
esmigalhada, eu podia ver carne aberta, o sangue escuro pingando e
misturando-se a lama, não havia íris em seus olhos, como se estivessem virados
nas orbitas, sua pele estava azulada como a de um morto e o som... O som que
ela fazia era o pior, algo que alterava entre pequenos estalos e gruídos de agonia
seguidos por um silencio momentâneo.
Eu corri. Foi a única coisa que consegui
fazer. Mesmo mancando eu sai em disparado. A dor amenizava graças à água fria,
e a chuva a retardava tanto quanto fazia comigo. Após um tempo ela sumiu de
vista, mas eu sabia que ela ainda estava vindo, ela não estava parando, então
eu não deixei de correr e tão pouco de chorar, nem mesmo parei para respirar
até sair do matagal para uma ruela estreita de lama. Ela descia transversal por
um decline até atingir outra estrada maior. A subida guiava ao topo de uma
colina, já a base corria até uma cidade.
Meus pulmões e tórax doíam quase tanto minha
perna, mas não o bastante para me fazer parar, aquela cidade podia ser minha
melhor chance, eu procuraria a policia, alguém tinha que saber o que esta
acontecendo.
A base da estrada levou até uma rua larga
que, somando ao caminho de onde vim, formava uma encruzilhada. Seguir reto era
a melhor opção para entrar na cidade, contudo...
-
Olá Conroy, não espera vê-lo aqui, consciente pelo menos.
Tentei dizer o nome
dele, mas não consegui dizer nada. O mesmo homem que encontrei no boteco
abandonado, ele estava lá, envolto pela chuva, segurando a ponta de uma
corrente, cuja outra ponta levava até uma coleira, presa ao pescoço da mesma
garota que atacou meu carro e tentou me matar. Havia outras duas idênticas a
ela com ele, também guiadas como cães.
- Vooo... Vooo...
ccêêê... – eu mal conseguia falar com a boca chacoalhando.
-
Isso mesmo, você se lembrou de mim – ele sorria alegremente – lembra-se do meu nome?
Não consegui dizer
nada.
-
Que pergunta tola a minha não é? Não tem mais que alguns minutos que nos vimos.
“Minutos? Do que ele
esta falando? Eu sai do bar a horas atrás”, entretanto meu relógio estava
marcando 01h33min. “O que diabos esta acontecendo?”. Comecei a chorar
novamente.
-
Ah, mais o que é isso Conroy, não precisa ficar tão triste só por ter esquecido
meu nome, não é um crime sabia? Vou me apresentar novamente. Meu nome é James
Flinders, e visto que esta na minha cidade agora, sou seu humilde anfitrião – o
homem fez uma breve reverencia – creio que
não preciso apresentar as meninas, delas eu garanto que você não esqueceu – então
ele piscou – e jamais esquecerá. Sabe
Conroy, eu gostei de você, e como as meninas têm por costume fazer o que eu
digo, vou deixar você se divertir com elas, ou melhor, elas se divertirem com
você, só não conte ao Manny certo? Ele pode não ficar muito feliz.
Sorrindo de uma orelha
a outra ele conseguiu gelar minha alma, e no instante em que ele soltou as
coleiras eu corri, a direção não importava, eu apenas corri, e rezei muito.
***
Elas não me seguiam pela rua. Saltaram para
os prédios e agarravam-se a estrutura como se fossem aranhas. As pancadas de
seus membros contra a madeira e o concreto eram ensurdecedores. Uma delas
saltou mais de uma vez da parede em minha direção, mas sempre errava o alvo,
todas elas, talvez os anjos ainda estejam do meu lado. Fossem lá o que fossem
elas eram perigosas, mas não muito inteligente.
Numa bifurcação mais a frente acabei
conseguindo enxergar um portão de aço que levava a um beco estreito e coberto
por uma construção inacabada. Num golpe de sorte eu arrisquei e me lancei
contra ele, que abriu de imediato. Pegas de surpresa as trigêmeas acabaram passando
direto por mim, o que me deu tempo suficiente para lacrar o portão com uma pá
que havia sido jogada não muito longe.
- Deus abençoe os
empreiteiros que nunca terminam as obras e deixam tudo pela metade – vibrei.
Eu sabia que aquele portão minúsculo não
conseguiria segura-las por muito tempo. Como esses monstros não pareciam sentir
dor cedo ou tarde o impacto delas contra a estrutura faria o aço ceder.
Não pude aproveitar nem mesmo o fato da
chuva gelada não estar mais caindo sobre mim, pois, com exceção do som da
mesma, todo resto ficou em silencio e isso era de longe o mais perigoso.
Ao fim do estreito caminho o beco quebrava
em dois, direita e esquerda. Eu sabia que a minha esquerda voltaria na mesma
direção onde aquele psicopata estava momentos atrás, mas talvez essa fosse a
melhor escolha, pode ser que ele não estivesse mais lá ou mesmo que não
esperasse por essa atitude. Então foi exatamente o que eu fiz.
Respirei o mínimo e mais baixo possível e
mesmo com minhas dores infernais fiz de tudo para não emitir som algum. Ao
final do beco havia outro portão de aço, estava trancado.
- Droga – resmunguei
baixo.
Eu poderia pular se ao menos minha perna
estivesse boa.
- Acho que só posso
voltar agora.
Dei meia volta para retornar pelo caminho
oposto, e possivelmente isso salvou minha vida e manteve-me no anonimato, pois
poucos segundos após eu me afastar o bastante para me atirar, camuflando-me,
numa pilha de folhas secas, uma das trigêmeas caiu bem de frente ao portão,
observou tudo com multa calma e farejou como um cão, depois se foi.
- Essa foi quase.
Elas provavelmente iriam investigar todo o
resto do local, eu precisava me apressar.
- Se não estou
enganado... – enfie as mãos no bolso.
O barulho de gemidos e estalo de ossos ecoou
pela rua deserta, eu disparei na hora. Até derrubei do bolso as fotos que
estava tentando alcançar.
O caminho em frente estava liberado,
contudo era muito aberto e sem cobertura. Todas as portas deste maldito lugar
pareciam estar pregadas com tabuas e não havia tempo para remover. Ficar
fugindo não me ajudaria, eu precisava despistá-los, eu precisava me esconder.
Comecei a observar.
No canto extremo a direita havia um prédio
com um detalhe um pouco diferente, as escadas de emergência que levavam até as
janelas dos andares superiores estava baixa.
- É isso ai - corri até
lá.
Não foi necessário mais que dois saltos,
mesmo com essa minha perna, para conseguir agarrá-la, contudo escalar com
minhas costelas machucadas foi complicado, a chuva também não ajudava, deixando
o metal escorregadio.
As janelas do primeiro andar estavam
pregadas, mas o segundo andar possuía uma janela de vidro entreaberta. Com um
pouco de esforço eu consegui abrir uma fresta grande o bastante para entrar no
apartamento, mas não tive tempo de fechá-la, o barulho poderia atraí-los. Eram
01h34min nesse ponto.
***
O psicopata surgiu na
esquina transversal segurando os três demônios pela coleira. Eu me agachei e
observei. Eles caminharam até a entrada do beco pelo exato caminho que eu
percorri a pouco, pareciam tão tranqüilos que chegavam a me dar náuseas. O tal
James se abaixou e pegou algo no chão.
-
Ah então você estava andando por ai com isso ein? – eram
as fotos que derrubei – para que
exatamente estava usando essas fotos? Mantendo-se aquecido a noite talvez? Que
embaraçoso, que embaraço é! Parece que temos de ensinar-lhe boas maneiras não
concordam minhas crianças?
Por um momento eu achei
que ele estava falando comigo, mas suas palavras eram ao vento, esperando que
eu as tivesse escutado com certeza.
E então eles se foram.
Mantive-me observando por um tempo, mas
parece que eles realmente se foram. Eu fechei o resto da janela e voltei-me
para o apartamento. Era bem mais espaçoso do que a janela pequena indicava. A
sala principal era larga, com sofá e uma TV antiga sobre uma estante de madeira
talhada, mais a frente havia uma espécie de área de acesso que levava a uma
porta, talvez a saída. Na diagonal direita havia uma pequena mesa redonda e
alta, com uma daquelas antigas caixas de musica a manivela, só faltava a
manivela. Ao lado deste uma escada que, além de levar ao segundo andar, possuía
uma serie de quadros pendurados na parede por toda sua extensão, por ultimo, á
base da escada, uma abertura para a sala de jantar-cozinha.
Não seria um bom plano tentar fugir de
imediato, portanto chequei a porta principal, estava trancada. A janela por
onde entrei fora a única da casa que não estava lacrada, em si, era a única
entrada ou saída. Nesse momento eram 01h35min.
***
O tempo começou a passar, mas se rápido ou
devagar eu não sabia dizer, não sei dizer até agora, ainda estou aqui, com meu
relógio a marcar 01h36min, pensado em tudo que passei, perguntando-me por quê?
Porque comigo?
A fome começava a apertar e a fadiga gerada
pelo frio estava ficando mais forte, ao ponto de me deixar com sono. Minhas
costelas e perna estavam doendo muito, porém me faltava energia para tentar
cuidar delas.
Quando finalmente tomei coragem para me mover,
provavelmente, devo ter percorrido o apartamento uma dúzia de vezes e não
encontrei nada, comida, água, nem mesmo um kit de primeiros socorros. Achei
porem linha e agulha no banheiro, mas não sou o tipo de homem que consegue
costurar a si mesmo, ao menos não sem uma ótima garrafa de aguardente para me
anestesiar, “o que acabaria me impedindo de costurar direito, mas esse é o
propósito”, e também encontrei a manivela da caixinha de musica dentro da
gaveta de calcinhas de um dos quartos acima. Seja quem for que dormia ali
parecia gostar da cor branca.
Pensei em ligá-la, afinal havia uma
eternidade, ou quase isso, que não havia sinal das trigêmeas homicidas ou do
domador de monstros, mesmo assim o receio ainda era grande. Mas quando o
relógio chegou a 01h37min, meio século depois, o tédio me venceu, acabei
colocando a manivela e girando. A música era bem suave, baixa e tranqüila, ao
menos por um tempo.
No momento seguinte a manivela começou a
rodar sozinha, aumentando gradativamente a velocidade e o som.
- Não! Fique quieta! –
minhas tentativas de parar a caixa de música não estavam surtindo efeito então
eu a destruí.
Um esforço tão banal quanto este fora o
suficiente para me deixar ofegante, mas foi quando eu pisquei e a caixa de
musica retornou intacta ao lugar de origem, recomeçando a musica de onde parou,
que eu realmente perdi o ar.
- Meus Deus, por favor,
me ajude! – exclamei.
A melodia agora avançava mais rápida, minha
cabeça ficou zonza, tudo parecia estar se movendo e girando, as paredes, os
móveis, os quadros e os ponteiros do meu relógio de pulso, até que eles pararam
em exatos 01h38min. A caixa tornou a tocar de maneira mais suave, foi o
estopim.
O apartamento vibrou, literalmente. Das
paredes começou a escorrer sangue, linhas muito finas, que caminhavam pelas
mesmas, percorrendo todos os cantos atingir a mesma direção, mirando numa
fotografia pendurada no topo da escada. O porta-retratos começou a absorver
todo sangue pulsante até ficar completamente lotado e a fotografia por dentro
do mesmo ficar imersa em vermelho.
O vidro começou a rachar até estilhaçar,
deixando todo o sangue vazar como uma cascata, o problema é que ele não veio
sozinho. Uma mulher começou a formar-se a partir do liquido jorrado, era bela,
estava nua, pálida como as trigêmeas e tinha longos cabelos negros.
Tentei correr no mesmo momento para a
janela, mas a musica alfinetou meus sentidos ao aumentar subitamente o tom,
meus ouvidos doeram muito, perdi o equilíbrio e cai, meu relógio quicou e parou
bem na frente dos meus olhos, eram 01h39min, a ultima coisa que vi fora o
sorriso daquele homem, que de algum modo estava dentro do apartamento, bem ao
meu lado...
***
- Ora, quantas vezes eu já disse para não comer no meio da
sala? Veja só você sujou tudo e ainda largou pedaços por todo lugar. É tão
difícil assim levá-los para dentro dos porta-retratos? Basta segura-los assim!
E enfiá-los vidro adentro, assim! Viu? Não é tão difícil. Só não se esqueça de
me deixar o rosto dele intacto, não quero nenhum faltando na minha coleção... É
irônico não é? Eu sempre conto até dez, tempo mais que o suficiente para eles
irem para qualquer, mas eles sempre vêm para cá tocar a minha música. 01h40min
é uma hora tão boa quanto qualquer outra para encerrar o jogo, afinal minhas crianças
tem que comer...
!!!


- Você me assustou – me esforcei para falar sem engasgar novamente.
ResponderExcluir- Sou tão feio assim?
- Não, quer dizer isso também, mas é que você surgiu do nada.
(Adoro esses diálogos em casal, acho fantástico esse tipo de vida alegre e animada. )
Amei essa introdução...
Continue assim... quero saber o restante sobre os livros :D
A muito mais a se ver sobre "Silencio", meu livro, e "New Perrish", eu lhe garanto.
ExcluirFique mais um pouco, aventure-se pela cidade, garanto que pode acabar encontrando outros muitos dialogos prazerozos.
Afinal, minhas filhas precisam de amigos, e você seria uma amizade fabulosa.
Espero que continuie a apreciar sua estadia e aceite meu convite.
Att, seu amigo...
James