Titulo: Nas Águas da Sereia
Autor: John Doe
Anfitrião: James L. Flinders
Anfitrião: James L. Flinders
Categoria: Adulto
O Homem
que Ri
James L. Flinders
John Doe
John Doe
Littlewiin
Inverno
de 1907
- Porque será que
sempre tem que estar chovendo nessa maldita cidade?
Apesar de ser dia o céu estava escuro,
grossas gotas d’água atingiam o vidro da janela dos Kyle com força, e as
pancadas produziam um estremecer e um som forte. Entretanto nem mesmo o forte
som do aguaceiro lá fora era o bastante para abafar os choros e soluços de sua
mulher.
Emilia B. Waters veio de uma família em
ascensão no ramo de transporte de alimentos e lutaram bastante para arranjar o
casamento de sua bela filha, com o filho do meio da família Kyle. Apesar do
receio da poderosa família, Edward W. Kyle encantou-se facilmente pela jovem e
sua beleza. Seus cabelos castanhos cor de cacau agradavam-no de uma maneira
irresistível, e não era pela coincidência de sua família ser uma das maiores
manufaturadoras de cacau da Inglaterra, e sim porque os fios brilhavam pôr
sobre a pele pálida, o sorriso rosado e os olhos, vorazes como os de um leão.
Os Waters estavam ansiosos, desejam por
veras o consumo de tal união, afinal os Kyle, além de clientes, abriram portas
para a alta sociedade. Por outra via a família do noivo não estava tão empolgada
assim, pouco tinham a ganhar com isso, mas como o irmão mais velho de Edward,
Twin, já estava casado, numa própria e vantajosa união, e gerindo a fabrica da
maneira esperada por seus pais, não havia razão para impedir o segundo filho de
fazer o que achasse melhor. Além do mais, nunca se sabe, talvez os Waters não
fossem um mau investimento para o futuro.
A cerimônia nem de longe fora tão majestosa
quanto a fora o casamento do primogênito, mesmo assim Edwad e Emilia não se
importaram, o amor não era falso, e o desejo era mutuo.
Infelizmente os sentimentos sozinhos não
seriam capazes de sobreviver a prova do tempo e da vida.
Twin R. Kyle acabou morto em um jogo de
cartas, um de seus passa tempos favoritos, pelas mãos de um bêbado que não gostava
de perder, em uma bodega no canto oeste da cidade, um local que um homem com
aquela classe não deveria freqüentar. Sua esposa acabou se suicidando poucos dias
após a morte do marido. Edward agora era o carro chefe da família e diretor da
fabrica.
Por três anos, após o luto, houve flores na
vida de Edward, sua esposa era fabulosa, os negócios iam de vento em poupa, e
ele mesmo tinha um passa tempo próprio, prostitutas. Não era muito nobre, mas
qual homem não fazia isso? Até seu “perfeito” irmão mais velho não teria sido
diferente, ele tinha certeza.
Emilia engravidou. A notícia quase matou
Edward de felicidade, um herdeiro, e homem se os céus permitissem, o que seria
ainda melhor.
Durante os nove meses de gravidez de sua
esposa ele não se deitou com nenhuma outra mulher.
***
O inverno chegou, as flores acabaram e junto
com a morte delas veio o nascimento do primogênito do ramo principal dos Kyle.
O bebê tinha a pele clara e os cabelos cor
de cacau da mãe, os olhos eram mais escuros, como os do pai e mesmo assim,
mesmo tendo tanto deles a criança foi rejeitada. Edward sentia nojo de olhar
para seu próprio filho, Emilia chorava dia e noite com o destino da criança que
ela tanto amava e nunca nasceu, e amaldiçoava a criatura que dela saíra, destruindo
o sonho do herdeiro.
O Sr. Kyle não conseguia mais tirar os olhos
da janela, controlando toda sua raiva para não correr até o quarto e esbofetear
a esposa para fazê-la parar com aquele choro infernal. Ele bebia mais e mais,
na esperança de se acalmar. Não estava surtindo efeito. Em certo ponto Edward
atirou o copo de vidro na parede, esmigalhando-o.
- Um maldito bobo da
corte, foi isso que essa puta botou para fora e agora fica choramingando –
gritou o mestre da casa.
A imagem não conseguia deixar a mente dele.
Os lábios vermelhos, torcidos em um sorriso enorme e permanente, todos os
músculos da face seccionados, sem contar os dentes. Qual criança já nasce com
dentes?
Os chiados de sua mulher agora estavam mais
altos que o barulho da chuva e esse foi o limite para Edward. Ele saiu em
disparado na direção do quarto dela, passando pelos empregados que, nervosos,
escutaram a gritaria.
- Cale essa boca! Você
não consegue...
A voz dele fora desaparecendo à medida que
os sons do espancamento e os gritos da mulher cobriam suas palavras.
***
Já fazia meses que a pequena abominação, como
pensava seus pais, vivia sobre aquele teto. Emilia nunca dava de mamar para
ele, tarefa que cabia aos empregados que, muito desgostosos com a aparência da
criança, faziam como ordenado.
Até o momento o garoto não possuía um nome.
***
Littlewiin
Primavera
de 1908
Distraído pela recente conturbação em seu
lar, Edward acabou deixando os negócios a cargo de terceiros, afogando-se cada
vez mais em bebidas e sexo pago, sua mulher estava cada vez mais deprimida.
Durante uma de suas noites clandestinas, ele
acabou por ouvir conversas sobre os filhos das prostitutas, os meninos cedo ou
tarde acabam caindo na marginalidade, as meninas entravam na prostituição antes
mesmo de fazerem 11 anos. Os boatos não eram apenas conversas e murmúrio de
lamentações, ou mesmo de desprezo das
próprias mães, ele podia confirmar, mais de uma vez já havia usufruído das
filhas das meretrizes.
Naquela noite ideias começaram a assombrar
sua mente.
Ele não precisou de mais do que três noites
para convencer sua esposa a participar de seu plano, bem como encontrar uma
prostituta disposta a, por uma boa quantia, cumprir sua parte no acordo.
O nome da puta era “Victoria”, seu nome de
batismo era Fiona, mas ninguém se interessava por isso. Numa noite qualquer ela
foi até o beco do açougueiro durante a madrugada para encontrar seu cliente.
Qualquer um que a visse passar imaginaria o tipo de trabalho que ela estava
indo realizar, seu vestido de renda preto e branco, forte maquiagem nos olhos e
lábios, luvas e sapatos rubros, cabelo dourado em cachos e meia calça negra e
sedutora. Ela conseguia disfarçar bem seus 40 anos. Contudo, o serviço de hoje
para ela era muito diferente do usual.
Duas pessoas encapuzadas carregando uma
trouxa, escondidos pelas sombras por entre as luzes nas ruas, aproximaram-se de
Victoria. Sem dizer meia palavra a sombra mais alta entregou-lhe um pacote
gordo, enquanto a sombra menor deixou com ela a encomenda.
Tão silenciosos como quando chegaram, os
dois visitantes se foram. Talvez para eles tenha sido melhor não presenciarem
as feições de desgosto e desprezo que Victoria lançou ao risonho bebê.
***
“Falece herdeiro da
família Kyle. A dor dessa mãe é sentida por todos nós”
Esse slogan de anuncio era o sussurro de
luto de Littlewiin. A modesta cidade acompanhava em sofrimento a perda desses
pais, afinal os Kyle não eram quaisquer uns naquele lugar. Quase ninguém
percebia o real desfecho dessa história, e os reais sentimentos da poderosa
família que ainda agora vivam em trevas.
O casamento de fato estava findado ao
fracasso. Não havia mais amor, sequer respeito entre Eward e Emilia. Os jovens
perderam o brilho.
Enquanto isso Victoria acomodava a criança
no bordel, em um dos berços não mais usados pelos filhos de suas companheiras
de trabalho. Ter aquela criança dividindo seu quarto não seria uma experiência
agradável, e se qualquer um dos clientes ou a “Madame’ o visse, sem duvida
teriam uma crise, o que poderia prejudicá-la.
Ela então correu até os pertences fechados
no baú, dentro do armário no centro do corredor do segundo andar da casa de
prazeres. Dentro do mesmo havia diversas máscaras de carnaval, uma delas era a
de um rosto sem expressão, completamente negra. Essa seria perfeita para ele se
tivesse idade para usá-la. A escolhida foi uma pequena máscara de pano, feita
para cobrar realmente apenas a boca e a narina. Ela teria de costurar e
remodelar o tamanho, mas valeria à pena se aquele sorriso escroto ficasse
coberto.
- Agora, que nome eu
vou dar para você?
***
Littlewiin
Verão
de 1919
O bordel estava lotado, mesmo ainda sendo
fim de tarde. O canto oeste de Littlewiin era, de conhecimento geral, o lar dos
porcos da cidade, mas esta área é o chiqueiro no chiqueiro. Não há nobres de
classe que visitam as mulheres para uma aventura fora do casamento, ou para
retirar a virgindade de um donzelo, aqui apenas os mais escrotos, sem higiene
ou escrúpulos, surgem para desfrutar dos corpos quentes tão sadios quanto os
deles.
Fora nessa bagunça que “Patrick” foi
largado.
Esse fora o nome que o garoto sorridente
recebeu da puta Victoria, que fazia questão de jogar-lhe na cara que ela não
era sua mãe, que ele fora largado ali, e que o dinheiro que ela recebeu por ele
terminara a muito e não valia a pena. Todas as demonstrações de carinho por parte
do jovem eram tratadas com escárnio.
Por diversas vezes Patrick se machucava
costurando os vestidos das meretrizes, ou queimava suas mãos na cozinha, e
precisava cuidar de si mesmo. Até um simples abraço lhe era negado.
As mulheres zombavam dele, fazendo piadas
infames e pregando peças e sustos no rapaz, as crianças o desprezavam e eram
ensinadas desde cedo a manter-se distante e os clientes não eram diferentes,
muitas vezes ele apanhou e fora maltratado ao ponto de chegar a chorar, fugir e
se esconder por horas. Infelizmente ele sempre acabava voltado e sofria ainda
mais por ter largado o trabalho de mão.
A máscara o protegia de coisa pior, era sua
melhor amiga. As poucas vezes que alguém o pegou “despido” a situação tomou
proporções piores que o inferno. Patrick não tinha nada e só sentia paz quando
estava trancado em seu quarto à noite, se é que aquele armário mínimo ao centro
do corredor do segundo andar pode ser chamado assim.
Para Patrick as esperanças de uma vida
melhor sempre brotavam durante a noite, em seus sonhos. Sonhos sobre amor,
família e amigos, e o mais importante de tudo, em sua imaginação ele não
possuía esse sorriso, ele era normal, não era lindo, mas era o bastante. As
pessoas o olhavam diferente, sorriam para ele, não tinham vergonha de tocar
nele. No mundo real Patrick era a única pessoa que agüentava olhar para
Patrick, mas não ali, não neste outro e belo mundo, onde ele era amado,
inclusive por seus pais.
Muitas vezes as lágrimas escorriam pelo
rosto dele enquanto ele dormia e por fim elas afundavam em seus largos lábios
que jamais se fechavam.
***
- Ei esquisito, traga
já a minha saia da lavanderia – gritava uma das meninas pelo corredor.
- Também preciso da
minha meia calça!
- Eu da minha echarpe!
Toda manhã era assim, Patrick já não se
incomodava mais tanto com isso, enquanto o bordel estivesse fechado ele não
tinha muito com o que se preocupar, por mais que elas fossem, havia limites
ali. As crianças porem sabiam ser bem piores, mas a essa altura ele já era
maior do que a maioria, e bastava tirar a máscara e dar um grito que elas fugiam
de medo, isso o fazia rir de verdade, e lhe acalmava os nervos.
Além de tarefas domesticas, em geral quando
estas já terminadas, Patrick também era livre para sair pela cidade, fazia
comprar para a casa, a “Madame” e as meninas, e essa sem duvida era a parte de
que gostava mais na maior em seu dia.
Havia lógico, rumores sobre o garoto
estranho de rosto sempre coberto, todavia não era muito incomum crianças e
jovens usarem máscaras por nenhuma razão aparente, assim sendo Patrick quase
consegui se sentir normal nesses poucos instantes ao sol da manhã.
A loja de perfumes ficava no quarto bloco
descendo a rua que passava de frente a casa de prazeres. A porta era de
madeira, pintada de cor esmeralda, ou já deveria ter sido assim, com plantas
penduradas entre a entrada. O cheiro era muito bom lá dentro, rosas e roupa
nova, completamente diferente do cheiro de cigarros, bebida e mulheres da casa
dele.
Ele não era estranho para a vendedora, uma
senhora gordinha, com dedos trêmulos e expressão muito gentil.
- Preciso destes, por
favor? – entregou-lhe um pedaço de papel.
- Claro mocinho – ela
sempre o chamava assim, Patrick gostava muito dela, mas ele sabia que era
tratado com gentileza porque ela jamais vira seu rosto, mesmo assim ele
costumava fingir que ela sabia de seu sorriso e mesmo assim não se importava –
aqui esta.
- Obrigado – falou após
entregar-lhe as moedas.
- Volte sempre mocinho.
Ele tinha de ser cuidadoso na volta, uma vez
acabou quebrando os frascos e levou uma grande bronca da Madame. “Acha que
dinheiro cai do céu seu vermezinho? Vai ter que pagar por isso”. Colocaram-no
para esfregar o chão até as mão ficarem feridas naquele dia.
Uma vez retornado ao seu leito, havia ainda
mais tarefas a serem feitas. Não havia descanso para Patrick, mas ele não se
importava, pelo contrario, quando ele trabalhava parava de pensar em tudo,
inclusive nos pais que nunca conheceu.
Infelizmente, ao chegar o fim de tarde, o
céu estava com uma cor avermelhada, muitos diziam que isso ocorria quando
alguém era morto de maneira cruel, o jovem pensava diferente, ele achava que
era mais uma premonição de que algo ruim estava vindo. Um arrepio lhe percorreu
a espinha.
Noite adentro os clientes chegavam e hoje
estava muito mais cheio do que de costume, ao ponto de colocarem o garoto para
ajudar a servir as bebidas. Havia gritos e dançaria por todo o salão principal,
mas meses estavam cheias de marinheiros, parece que um navio havia aportado a
pouco nas docas e os homens queriam diversão. Sem dó eles estapeavam a bunda
das meretrizes, derramavam vinho em seus seios e os chupavam até estalar, um
deles, um bem grande e barbudo, estava mais agitado que os demais, exigindo
bebida a cada segundo passado.
- Essa porra não vai se
encher sozinho! – gritava ele com uma mulher em seu colo.
Patrick serviu mais vinho a ele em menos
tempo do para todos os outros clientes juntos, até esbarrar em um dos
marinheiros e derramar o vinho por cima do barbudo. Tudo pareceu ficar muito
quieto na hora, ele já estava todo lambuzado por jogar a bebida sobre a puta,
mas isso não pareceu diminuir o efeito.
- Você enlouqueceu seu
pivete? Jogando vinho na minha cara? – ele empurrou a mulher e se levantou.
- Eeee... – Patrick
começou a recuar conforme o homem se aproximava, mas não conseguiu escapar dos
braços compridos dele.
- Acha isso bonito é?
Acha engraçado seu merdinha? – ele segurava o garoto pelos cabelos – Vou te
ensinar a ter respeito! – o tapa ardeu mais do que doeu, o impacto lançou a
máscara longe.
No segundo seguinte todos estavam olhando
horrorizados o sorriso manchado de sangue, de Patrick. Os murmúrios de nojo,
pena e surpresa começaram e somente o homem reagiu de maneira estranha.
Diferente do que qualquer outra pessoa ele começou a rir, mas não um riso de
zombaria, ele gargalhou.
- Garoto você é
engraçado, fazia tempo que eu não chorava de rir. Ta bom, já que você me
divertiu eu não vou mais te espancar até matar, mas como tudo que tem em cabaré
é puta – ele começou a abaixar a calças – eu vou te fuder até arder garoto
sorridente.
- Não! – gritou o
jovem, tentando engatinhar pelo chão.
O homem barbudo o agarrou pela perna, e
começou a se jogar por cima dele.
- Olha só a aberração
tentando escapar! Vai precisar de mais do que isso para me impedir garoto!
Patrick tentava lutar, se esticando para
longe dele, mas o homem era mais forte. Suas mãos estavam na cintura do jovem
tentando remover sua roupa.
- Pare de se mexer esquisito,
vai acabar doendo mais ainda – ele babava por sobre a barba, rindo sem para.
Patrick, que já odiava sorrisos, agora sentia-se ainda pior.
Acabou sendo o pote de vinho que ele
derrubou quando fora ameaçado pelo homem que o salvou. O garoto agarrou o pote
de barro, bateu-o no chão, e usou a parte estilhaçada, atirando o braço para
trás contra o estuprado, atingindo-o direto na jugular, por onde o sangue
jorrou como uma correnteza, tão estranha e incomum para o jovem quanto não era
para os demais.
O homem barbudo agora já não podia mais se
mover, ou fazer mal a ele. Patrick estava salvo, mesmo assim algo dentro dele
estava quebrado. E os olhos, os olhares por sobre ele, que sempre foram de
escárnio e desgosto, agora eram de medo, de horror.
Em seu desespero, o garoto se levantou,
ajeitou suas calça, apanhou sua máscara e correu porta afora.
A velha agradável da loja de perfumes não o
veria outra vez. Ele jamais retornou ao bordel, aquela rua ou a qualquer lugar
em que alguém o conhecesse, por muito tempo.
A noticia da morte do homem do mar não
chegou nem a virar noticia, afinal ele não era ninguém.
***
Após fugir do único lugar que conhecera como
lar, Patrick correu pela rua escura e deserta, mesmo com a respiração pesada e lágrimas nos olhos. Ele não parou até chegar na velha abertura no chão da
esquina das laranjeiras. Ele abriu a tampa com muito esforço, passou por ela e
fechou-a.
Em seus sonhos ele já havia desaparecido em
meio ao mal cheiro e a umidade, em meio as sombras e aos ratos, tudo para fugir
de seu destino, mas agora era real.
A penumbra do esgoto conseguiu esconder até
o sorriso de Patrick.
***
Littlewiin
Primavera
de 1939
Iniciada a Segunda Grande Guerra.
***
Littlewiin
Primavera
de 1939
Edward W. Kyle e esposa abandonam
Inglaterra.
***
Littlewiin
Inverno
de 1939
Incêndio destrói três prédios na biboca
oeste de Littlewiin, uma lavanderia, um deposito de vinho e uma casa de
prazeres.
***
Littlewiin
Outono
de 1940
Fabrica de Cacau da família Kyle declara
falência e fecha as portas, deixando dezenas de desempregados.
***
Littlewiin
Inverno
de 1941
Lívia Bianca Colt é filha de Joseph L. Colt
e Marieta Clara Colt e, desde o fechamento da fabrica de cacau dos Kyle,
precisa trabalhar como recepcionista de um restaurante na entrada do lado oeste
de Littlewiin, pois seu pai é muito velho para arranjar outro trabalho, e sua
mãe ganha muito pouco como costureira.
À volta para casa é sempre complicada para
Lívia. A noite pode trazer diversos perigos para uma bela jovem de loiros
cabelos encaracolados, pele macia e clara, que ouse andar desacompanhada. Nesta
noite em particular a jovem esta para se envolver na pior história que poderia
imaginar em seus 21 anos de vida.
- Olhem só, uma
rapariga caminhando sozinha a essa hora!
Havia três homens no escuro, seus rostos
sujos e de péssima aparência deixavam clara suas intenções. Lívia não deveria
ter retornado sozinha para casa essa noite.
- Preciso retornar,
está tarde e meu pai se preocupa.
Ela tentou desviar-se deles e seguir seu
caminho andando mais depressa, não obteve muito sucesso.
- Calminha potranca –
falou o careca, segurando-a pelo braço – não precisa ter tanta pressa.
- Podemos fazer você se
divertir um pouco antes de voltar não?
Eles sorriam e trocavam olhares, pareciam
cães raivosos atrás de carne, mas seus desejos não duraram. O mais afastado dos
três tombou ao chão quando atingido por um paralelepípedo direto na cabeça.
Lívia se assustou tanto quanto eles.
- Que merda foi essa? –
gritou o careca.
- Sua puta, quem mais
esta ai? Fala!
- Eu não sei – chorava
Lívia.
Ele torceu seu pulso e atirou-a ao chão,
virando para procurar o responsável.
- É melhor você se
cuidar seu bosta, porque vou acabar com você quanto te pegar.
Das sombras uma mão suave surgiu e pôs-se
sobre os ombros de Lívia, ela quase gemeu, mas o misterioso mascarado selou-lhe
os lábios.
- Venha comigo
senhorita, se quiser viver.
Ele puxou-a pelas sombras e a carregou para
longe. Quando os criminosos notaram que sua presa fugira, eles já tinham a
vantagem.
- Para onde esta me
levando? – falava ela entre soluços.
- Não são só aqueles
três, havia mais deles na outra esquina, companheiros. Quando descobrirem o que
aconteceu lá vão nos caçar. Só conheço um lugar aonde não vão nos achar, mas
não posso te levar para lá.
- Por quê?
- Se eu te levar, não
vai poder sair por um tempo.
Ela não queria ir, não o conhecia e tinha
medo, nada garantia que ele não fosse um dos criminosos também.
Em certo ponto, assim como prevenira o
mascarado, outros se juntaram a caçada dela e do responsável pela pedrada. O
salvador começou a ficar ofegante, e parecia preocupado, Lívia estava começando
a ficar mais curiosa que assustada.
- Acho que não tenho escolha,
por favor, me desculpe por isso, mas se nos pegarem – disse ele ao perceber que
estavam ficando cercados.
- O que você vai...
Ela não conseguiu terminar a frase, um soco
no estômago a fez perder as palavras e a consciência, por quanto tempo ela não
saberia dizer, nem mesmo saberia dizer onde estava quando enfim recobrou os
sentidos.
***
O lugar era pouco iluminado, com paredes
escuras e lamparinas para dar alguma visibilidade. Lívia estava deitada em uma
cama improvisada, seu corpo aquecido por um grosso cobertor. Ela estava
espantada, mas não reagiu de maneira agressiva, pelo contrario, levantou-se
suavemente e com toda a calma deixou o aposento.
Fora do quarto ela estava numa espécie de
grande sala conjunta. A área de descanso, jantar e cozinha não possuíam
divisórias, era tudo muito espaçoso e, para algo semelhante a uma caverna, era
bem decorado. Havia mais quatro portas excluindo aquela por onde Lívia passara.
Uma delas abriu-se e o homem mascarado
fez-se presente.
- Bom dia senhorita.
Espero que eu não a tenha machucando muito.
Ela mal havia notado a dor no abdomem.
- Porque você me bateu?
Porque me trouxe aqui? Onde estamos?
- Você realmente fala
bastante – ele achou graça.
- Geralmente falo
quando estou nervosa.
- Venha comer alguma
coisa, vou lhe explicar tudo.
O café da manha não era requintado, mas foi
mais que o bastante para saciar a fome da jovem, que além de falar muito, comia
muito também. Ele parecia se divertir com isso, e não conseguiu desviar os
olhos da bela jovem. Não demorou muito para o interrogatório começar.
- Quem é você?
- Eu me chamo Patrick.
- Patrick de que?
- Patrick apenas, meus
pais nunca me deram o nome deles.
- Foi abandonado? O que
aconteceu com você?
- Muitas coisas.
- Não precisa falar se
não quiser, mas ao menos pode dizer-me onde estou e porque me trouxe aqui?
- Lamento por lhe bater
alias, mas vivo escondido aqui há muito tempo, não podia deixar você enxergar o
caminho, não seria bom se descobrissem onde estou e eu tivesse que largar tudo,
levei anos para construir esse lugar.
- Então é um
construtor?
- Nem chego perto – mas
isso o fez sorrir – Mas para dizer a verdade, acho que temos algo tenso para
conversar.
- Qual o problema?
- Primeiro preciso que
entenda que eu não tinha saída e precisei fazer uma escolha...
Lívia estava começando a ficar com medo, e
isso a fazia querer falar ainda mais.
- Do que esta falando,
me diga logo!
- Não posso deixar você
ir embora.
- Como assim não pode?
– ela levantou-se da cadeira, se irritada ou assustada, Patrick não soube
dizer.
- Não posso deixar você
sair daqui sozinha, se pegarem você me achariam, também não posso apenas
apagá-la e levá-la para fora, não sou procurado apenas por aqueles homens, é
muito arriscado.
- Mas você precisa me
deixar ir, e minha casa? Minha família? Meu trabalho? Eu não vou contar para
ninguém, nem sei onde estamos.
- Sabe que é um
subterrâneo, sabe a cor da pedra, é o suficiente para um homem esperto. Lamento
muito.
- Vou fugir.
- Vai se perder nos
túneis e fazer ambos perder tempo.
- Quanto tempo vai me
fazer prisioneira?
- Alguns dias no
máximo, depois disso não deve haver mais problemas.
A moça levantou-se e deixou a mesa
revoltada, trancando-se no quarto. Patrick suspirou fundo.
***
Durante os primeiros dias Lívia tentou
escapar. Apenas uma das portas estava trancada e não era a que levava a saída,
contudo os túneis eram negros, fétidos e idênticos. Ela acabou por se perder,
até que Patrick a encontrou e levou de volta.
Depois disso ela desistiu de fugir e aos
poucos começou a se acostumar com o lugar. De inicio tudo a deixava incomodada.
A única coisa havia para se fazer ou distrair eram os livros e Lívia nunca foi
uma boa leitora. Isso mudou. Ela também passou a cozinhar e cuidar do lugar,
deixando tudo sempre limpo e perfumado.
Patrick tinha que sair para buscar
suprimentos às vezes, e sempre voltava com um presente para ela, inclusive uma
dessas modernas televisões, onde se podia ver pessoas em preto e branco através
de uma caixa. Ela ficou fascinada.
- Como consegue tudo
isso? – perguntara certo dia.
- Honestamente? Eu
roubo.
Ela não conseguia não achar engraçado.
- Porque você usa
máscara sempre? – essa pergunta ficou sem resposta por muito tempo.
- Meu rosto, espanta as
pessoas.
A jovem sempre insistia para que ele lhe
mostrasse o rosto, ele jamais permitira. Ela tinha certeza de que poderia
conviver com o que quer que esteja atrás da mascara, ela já estava apaixonada.
***
Com a guerra estourando na cidade e no mudo
acima deles, Lívia tinha certo alivio em estar protegida com Patrick, mas temia
por sua família. Ele contara que, ao visitar os pais da jovem quando tinha a
chance, eles se mostravam tristes e preocupados com o desaparecimento da filha,
mas ao menos estavam bem, e seus problemas financeiros estavam diluindo, mesmo
assim a jovem sofria por isso e Patrick não teve como não notar.
- Amanhã vou te levar
para casa – disse ele uma noite – já faz dois meses, é mais do que hora, não há
mais riscos para você ou para mim.
- E quanto a você?
- Vou ficar aqui onde é
meu lugar.
Lívia não sabia dizer se realmente queria
isso, ela desejava rever sua família, mas o amava e não queria deixá-lo.
- Venha comigo, meus
pais vão te aceitar.
- Não posso, ninguém
nunca vai me aceitar.
- Eu já aceito, eu te
amo. Deixe-me ver seu rosto.
- Lamento muito Lívia,
mas não, amanhã você estará em sua cama outra vez, e poderá continuar com as
lembranças que tem de mim, amar isso, assim como eu sempre amarei você também.
Ela já sabia dos sentimentos dele, soubera
desde que ele a salvou daqueles homens.
***
Durante aquela madrugada ela tomou uma
decisão, ela precisava ao menos dar um beijo no homem que amava. A moça não
poderia viver consigo mesma sem realizar isso.
Esgueirando-se pelo quarto dele, tendo
garantindo durante o dia que ele não seria capaz de trancá-lo, ela foi até seu
corpo adormecido.
- Mesmo dormindo ele
usa essa coisa – falou entre sorrisos num surro – eu quero te ver meu amor –
então ela retirou a máscara.
O grito fez com que Patrick acordasse de repente.
O susto fez seu coração palpitar, mas quando ele percebeu que estava com seu
sorriso amostra e viu Lívia afastada ao canto, sua alma quebrou pela segunda
vez na vida.
- Meu Deus, eu não
sabia, eu sinto muito, não posso...
Ela saiu do quarto aos prantos, correndo sem
parar até alcançar os túneis que levavam a saída. Patrick estava em choque. Ele
já havia visto aquele olhar dezenas de vezes sempre que as pessoas o viam pela
primeira vez, era um olhar de nojo, e isso doeu fundo no peito dele.
***
Quando
Lívia abriu seus olhos eles arderam. Ela pareceu reconhecer aquele lugar, era
familiar, mas mesmo assim não conseguia ter certeza. Aos poucos seus sentidos
tomavam foco e uma dor exorbitante por todo seu corpo atingiu-a como uma lança.
Tentou falar, mas não conseguiu, estava amordaçada, com seus ombros, tronco,
braços e pernas pregados, literalmente, a uma cadeira de madeira. Seu grito
interno fora destruidor.
Em agonia ela olhou em volta, a procura de
uma explicação, mas só achou mais razões para gritar. Em outras cadeiras postas
de frente a mesa de jantar que ela estava havia outros corpos, já apodrecidos,
também pregados ao assento, assim como ela.
Seu sangue pingava no chão e fazia um eco
grave, por um momento foi tudo que ela ouviu além dos próprios gemidos.
Uma porta se abriu e o homem sorridente
entrou por ela.
- Eu lamento, te
assustei? Não precisa, veja só, nossa recepção esta quase pronta, esse será o
mais belo noivado de todos. Meu quarto secreto não é tão grande, mas vai
servir.
Ela
gemia mais e mais alto, tentando gritar enquanto ele sorria, sempre, com o
rosto próximo ao seu.
- Você tinha razão, nos
amamos então devemos ficar juntos para sempre – Patrick passou a língua pelo
rosto dela, sentindo a maciez de sua pele, e aperto com força seu seio – Espero
que não se importe que eu tenha adiantado nossa lua de mel enquanto você
dormia, mas como o casamento já é garantido então não tem nenhum problema.
Ela chorava, horrorizada com as palavras que
ouvia.
- Não fique triste, é
por causa dos seus pais? Porque eles deveriam estar aqui nesse dia tão
importante? Não se preocupe, tenho uma surpresa para você.
Ele saiu de seu campo de visão e quando
retornou trouxe consigo duas novas cadeiras, ajeitando-as na mesa de frente a
jovem. Joseph L. Colt e Marieta C. Colt estavam pregados nelas e não mais se
moviam.
Lívia desabou na hora, perdendo os sentidos.
Todavia não era educado dormir no próprio noivado, pensava Patrick. Com um
forte tapa ele a trouxe de volta.
- Ah não durma ainda
meu amor, sei que é cansativo, mas não se preocupe, eu vou cuidar de tudo,
apenas aproveite a companhia de seus pais, meus pais e Victória, a mulher que
me criou. Somos todos uma grande família agora.
Patrick saiu saltitando para buscar o jantar
que prepara de maneira tão especial. Ele estava muito alegre e sabia que Lívia
também estava. Afinal quem não ama um final feliz?
Hahaha!!!


Que medo!
ResponderExcluirNossa esse foi horrível.
Me senti mal, com esse conto.
Ficou particularmente maravilhoso, a história muito bem bolada; mais o pobre menino teve um bom começo, um péssimo destino, e um futuro triste.
Mais considerado que você escreve terror - veio muito bem a calhar!
Fico mais do que satisfeito com seu apreço pelo meu presente. Sabia, minha querida hóspede, que assim como eu você e todos os outros amariam um final feliz.
ExcluirDesejo-lhe tudo de bom e sinta-se avontade para aproveitar tudo que minha humilde cidade pode ofertar.
Espero que continue a aproveitar sua estadia.
Att, seu amigo...
James
Eu não esperava um final feliz. Eu esperava um final mais macabro.
ExcluirOh minha cara, mas porque? A felicidade é tão bonita, aquece nossos corações. Você não vê o casal do conto? Ele saltita de alegria e ela ira sorrir... Para sempre!
ExcluirExiste coisa melhor? :)