Conto: Bem Vindo ao Pássaro Azul




Titulo: Bem Vindo ao Pássaro Azul
Autor: John Doe
Anfitrião: James L Flinders
Categoria: Adulto


Bem Vindo ao Pássaro Azul


James L Flinders
John Doe


 

   Entrei naquele quarto escuro, se eu pudesse evitar, gostaria de nunca voltar aqui, mas não podia apenas dar as costas e deixá-lo lá para morrer de fome.
- Albert – chamei o mais suavemente que consegui – eu trouxe seu jantar.
   Ele continuava parado, enrolado sob as cobertas, já faziam 6 anos. 

***

   Ninguém que conheceu Albert Salvaro anos atrás poderia dizer que era a mesma pessoa.
   Quando Jackson frequentava nossa casa, que ficava na zona sul, Albert era quase um líder político.
   Lembro de quando eles chegaram, devia ser um sábado a tarde, eu estava jogada no sofá da sala, fazendo absolutamente nada. Entraram correndo e dispararam para o quarto, eu os segui, apenas por estar entediada.
- Ah cara você deveria ter visto, ela era louca, nunca achei que uma garota daquela me jogaria contra parede daquele jeito...
   Pude ouvir, atrás da porta, Jackson falar. Ele tinha voz de criança, Albert era diferente, voz grossa,  parecia completamente maduro e inteligente o tempo inteiro, acho que os óculos ajudavam.
- Você deveria parar de falar desse jeito, sua educação me deixa abismado.
- Mas que culpa eu tenho se foi isso que acontecendo? Amanda me pegou e...
- Não quero saber os detalhes ok?
   Amanda Hilton era uma garota gordinha que estudava com meu irmão, Jackson era de uma sala diferente. Pelo que diziam Amanda era introvertida e dificilmente falava com alguém, há quem diga que ela esta mais para um vampiro do que um ser humano.
- Bem então me fala sobre você e Samantha! – uma garota com quem meu irmão estava saindo nessa época.
- Vai sonhando Jackson, vai sonhando.
   Na verdade eu não consegui entender aqueles dois, era uma amizade tão frágil, o que os tornava tão felizes?
- Ah! – gritei quando a porta se abriu.
- Você deveria parar de ficar ouvindo atrás da porta – meu irmão abriu caminho para eu entrar.
- Eu estava entediada.
- Ai resolveu espiar, belo passatempo, nada original.
- Mas funciona.
   Entrei e me joguei na cama dele. O quarto era pequeno, uma cama de solteiro, um armário e uma escrivaninha com seu computador.
- Então Jackson, o que Amanda fez com você?
- Olha só ao menos Anna esta interessada, vou contar, bem...
- Ahr...
   Albert pulou em cima dele.
- Ora cale essa boca, você não vai falar essas coisas para minha irmã!
   Eles começaram a se enroscar no chão, parecendo duas minhocas num nó bem apertado.
- Ela não é uma criança, já tem 17 anos...
- Calado!
   Quase me fizeram rir.

***

   Deixei a comida no canto perto da cama, ele sequer se moveu ou me olhou. Pude sentir meus olhos se fecharem de agonia, igual a toda vez que eu era obrigada a olhá-lo dessa maneira.
   Virei-me sem dizer absolutamente nada e me retirei. Desci as escadas o mais rápido que consegui, segurando-me a parede. Tenho certeza de que ele podia ouvir meus passos apressados. Apertei meu peito, o coração acelerava.
   Caminhei até a cozinha, nela não havia nada a se fazer, tão pouco em nenhum outro lugar, é uma pena, e hoje eu não estava trabalhando. Fiquei apenas quieta até anoitecer. Quando este se fez, peguei meu sobretudo e sai.
   As noites eram sempre frias nessa cidade, meu hálito ganhava uma cor esbranquiçada, como neblina, ao sair de minha boca. Varias pessoas andavam pela rua, mas parecia que eu estava sozinha. Sombras me rodeavam, sombras e apenas elas. Cada passo dado fazia-me estremecer. 
    Rápido como uma bala o tempo me ludibriava e logo estava escuro, mais escuro do que era possível. As luzes da cidade pouco contavam, imagino se o sol sentia-se assim a noite. Que pensamento mais idiota.
   Parei de frente ao “Bar do Todd”.
   A iluminação era boa para uma espelunca sem classe, mas não foi pela “bela aparência” do lugar que eu vim até aqui. Sentei-me no bar. Porque será que não estou surpresa de ver que não há nenhum cliente? O Barman virou-se para mim.
- O que vai querer?
- Uísque, duplo.
   Ele serviu-me. Tirei o sobretudo e joguei-o sobre o balcão.
- Você esta linda como sempre Anna, gostei do que fez ao cabelo, o preto combinou.
- E você deveria pintar essa sua barba e cabelo brancos, tente um castanho, ficaria muito mais jovem.
   Todd era o dono desse lugar e provavelmente o único amigo que me restará, que estava apaixonado por mim não havia duvidas, mas um coroa de 50 anos de idade não era meu ideal de par perfeito, além do mais não estou interessada em qualquer coisa do tipo seja com homem ou mulher. Outro pensamento esquisito.
   Ele sorriu levemente, mas seu olhar se tornou uma mistura de preocupação, tristeza e pena, eu detestava esse olhar, mas não podia detestá-lo, de certa forma, precisava dele.
- Pare de me olhar desse jeito velho, sabe que eu odeio.
- Cuidado com quem chama de velho, acabei de fazer 50 e estou inteiro.
- Não vim aqui para ouvir dos seus dotes, quero saber sobre “Ele”. É verdade que ele esta em New Perrish?
   Ele olhou para o lado umas três vezes antes de responder.
- Sim.
- Muito estranho um homem como esse estar nessa cidade pacata, justo agora.
- Pelo que sei ele esta fugindo, a policia esta atrás dele, marcação cerrada dessa vez - isso era novidade para mim -  alguém conseguiu mesmo pressioná-lo?
- Aqui me parece um bom lugar para desaparecer, eu já fiz isso. Anna esta realmente pretendendo ir atrás dele?
- Não tenho escolha, tentei muito durante os 2 últimos anos, mas não consegui achá-los, e sem deixar meu irmão para trás é impossível seguir essa trilha sem um homem como ele.
- Dinheiro...
   Não o deixei nem terminar o que ia dizer.
- Já esta resolvido, não importa o que tenho que fazer.
   Todd franziu o rosto. Ele já fora alguém muito poderoso num mundo que a maioria das pessoas só conhece pelos filmes. Quando perdeu a esposa e a filha largou tudo e se enfiou nesse fim de mundo abandonado, nesse bar que quase não dava lucro.
   Não entendo exatamente o amor ele sente por mim, e não quero saber, sei que ele me salvaria independente da situação, é assim que ele é quando se preocupa, por mais que pudesse acabar muito mal.
   “Não que eu me importasse muito com o que seria dele”... Isso realmente passou pela minha cabeça. Quando será que eu perdi o resquício de humanidade que tinha? Talvez junto com meu irmão, ou então...
- Anna cuidado, uma vez que entrar nisso, que se meter com esse homem não vai mais haver saída!
- Onde ele esta?
   Ele respirou fundo.
- Vou acertar tudo para você vê-lo ok. Sorrow não é alguém fácil de achar, mesmo nessa cidade pequena e pacata.
   O silencio de minha boca seguia em contraposto com os rugidos de meus pensamentos. Ele encarava-me. Sua boca se abriu e fechou umas três vezes.
- Se quer dizer algo diga!
- A vingança nem sempre é o que nós achamos que ela deve ser, existem outros finais Anna.
   Não respondi.
- Não vai dizer nada?
- Outro wiski, duplo.

***

   Era cedo quando a campainha tocou.
- Eu atendo – gritou Albert entusiasmado.
   Nossa mãe nem se deu ao trabalho de se mover, apenas sorria. Papai trabalhava muito, portanto quase nunca estava em casa. Não tenho certeza se eu existia nesse mundinho familiar.
- Oi – falou a moça com voz feminina demais logo que ele abiu a porta.
   Ajeitei-me no sofá para poder enxergá-la. Christine tinhas longos cabelos castanhos cor de mel, sua pele clara reluzia na manhã, nas luzes de um sol ainda fraco. Era sem duvida uma mulher muito bonita. A propósito os seios de algumas mulheres, os perfeitos demais, podem realmente matar outras de inveja, só uma observação.
   Albert olhava para ela do mesmo jeito que um alpinista deve olhar para uma mascara de oxigênio após ter escalado o Evereste.
   Eu não tenho certeza do que eles conversaram exatamente, trocaram poucas palavras e se foram.
   Nas semanas que se seguiram meu irmão esteve meloso a ponto de dar nojo, eles se falavam pelo telefone o tempo inteiro e passavam horas juntos. Imaginei que o desempenho dele fosse cair nos estudos, mas era o contrario, ele estava vivo, como nunca estivera. Talvez Christine fosse mesmo um remédio para ele depois de Samantha, com o tempo passei a não odiá-la.

***

   Levou duas noites para Todd arranjar meu encontro com Sorrow. Fiquei agradecida por ter algo para fazer fora de casa, ficar longe do meu irmão.
   O vento frio cortava como laminas de vidro. Estava frio demais para essa época do ano, um supersticioso talvez imaginasse ser culpa desse mesmo homem que eu encontraria, que fosse sua simples presença que estava congelado tudo em volta. Tudo que passava pelas mãos dele perdia a vida, se torna frio e inerte, morto.
   O quarto do Hotel vagabundo era avermelhado, o que me deu um pouco mais de conforto. Este, por sua vez, era extremamente precário, perfeito para se esconder.
   Todd ficou logo atrás de mim próximo a porta. Sorrow estava sentado numa cadeira, de lado para a janela, vestia uma capa de chuva preta sobre sua roupa, o capuz cobria-lhe a cabeça, mas pude ver pequenos fios loiros escapando pela lateral, não pude ver seu rosto, ele não olhava para mim e sim para fora, para chuva. Quando começou a chover?
- Então esta é a garota? – disse ele, sua voz era leve, quase romântica.
   Ele me via pelo vidro da janela.
- Sim – indagou Todd secamente.
   Sorrow se levantou e virou-se para mim, sorrindo, mostrando seus dentes brancos e alinhados, usava óculos sobre os olhos azuis. Abaixou o capuz, seu cabelo loiro cedeu para frente, era comprido, na altura do ombro, e curvou-se numa breve reverencia.
- O que você deseja? – levantou para mim apenas seu olhar.
- Preciso que traga duas pessoas para mim.
   Ele parou, o sorriso desapareceu.
- Trazer?
- Exato, não quero que encoste neles, tenho algo por minha própria conta a mostrar.
- Entendo. Posso tornar seu desejo realidade, mas lembre-se, tudo tem um preço.
- Dinheiro não é problema – menti.
- E quem falou em dinheiro?
   Fiquei surpresa.
- Se não quer dinheiro, o que você quer?
   Numa fração de segundos eles estava do meu lado, assustei-me, Todd deu um passo a frente, mas parou em seguida.
- Talvez esse seu belo corpo – sussurrou para mim.
- Ora seu...
   Todd quase explodiu de raiva, eu levantei minha mão para ele, impedindo-o.
- Se é apenas isso que quer faça como quiser.
   Pude enxergar que minhas palavras atravessaram Todd como uma lamina afiada demais, seu corpo praticamente murchou. Sorrow riu alto e afastou-se.
- Muito bom, muito bom – bateu palmas antes de se virar – muito bem, vou realizar seu desejo e trazê-los, apenas isso. Não cobrarei nada, nem agora nem depois. Tenho a impressão de que a sua aventura me será útil de algum jeito.
   Apenas o observei por um segundo, ele voltou a olhar para fora, provavelmente perdido em seus próprios anseios.
- Por que? – quis saber.
- Bem, porque você é divertida – gargalhou - E quem são? Nossos convidados?
   Atirei um envelope pequeno para ele.
- Ai vai encontrar duas fotos com o nome deles e todas as informações que eu tenho. Tento achá-los a anos e não tive chance...
- Nove dias – falou ele após abrir o envelope – em nove dias, no mais tardar, entregarei seus amigos embrulhados para presente.
   Nove dias? Ele é louco, como faria isso? Essa cidade fica longe de qualquer outro lugar civilizado, seria impossível, contudo...
- Temos um acordo então - falei.
   Dei as costas e abri a porta para sair.
- Anna Salvaro – olhei-o ao ouvir meu nome – gostei dos seus olhos.
   Fechei a porta atrás de mim.
   Mantive-me em silencio até estarmos longe dali, e teria permanecido assim se Todd tivesse resistido a vontade de abrir a boca.
- Você realmente entregaria seu corpo a ele?
- Se fosse preciso.

***

   Eu fui obrigada a me mudar. Não podia deixar mais meu irmão ficar perto de nossos pais, mamãe estava deprimida e papai estava muito doente. Uma psicose profunda se apoderará de Albert, uma fobia de qualquer forma de vida humana, ele chorava e gemia como se estivesse vivendo aquele pesadelo o tempo inteiro.
   Por um tempo eu o odiei, pelo amor de Deus, ele era um fracasso, como alguém se deixaria abater por algo tão... Calei-me.
   Porque apenas não seguir em frente como uma pessoa normal? Mas não, algo nele quebrou, os olhares das pessoas zombavam dele, como se todos estivessem encarando e rindo o tempo todo. Sem duvida ele era um franco, mas não era sua culpa, não podia ser.
   Nosso pai morreu depois que estávamos fora por um ano, ele já estava debilitado e logo não aguentou, nossa ajuda financeira se foi com ele. Tive que trabalhar para cuidar e alimentar meu irmão e a mim. Não importava que trabalho, se era vergonhoso, se eu precisava usar roupas minúsculas para atrair clientes. Eu teria vendido meu corpo se tivesse sido necessário.
   O tempo parecia correr sem nenhuma pressa enquanto eu apenas sofria, por isso comecei a caçá-los, alguém tinha que sofrer mais do que eu, mais do que nós. Entretanto, como de costume, eu fracassei diversas vezes.
***
   Durante a semana inteira choveu muito forte. Ir trabalhar foi péssimo. Nada mudou. Nove dias, fora isso que ele me prometeu. Seria realmente possível?
***
   Na madrugada da oitava noite ele estava lá, no meu quarto, como conseguira entrar?
   Seus olhos não me deixavam, ajeitei-me na cama, cobrindo meu corpo seminu com a coberta, por alguma razão meu olhar era de ameaça, eu não tinha medo, não enquanto ele estava perto, mas uma vez que estivesse longe, o estranho tremor me abateria.
   Ele lambeu os lábios levemente, podia sentir sua visão focar no meu ombro exposto.
- Seu presente esta te esperando – ele falou, sua voz arranhava o silencio como facas na porcelana.
   Não respondi, não podia desviar os olhos dele, seria perigoso demais. Sorrow atirou-me um pedaço de papel. “Yellow Box” era o que estava escrito.
- As paredes tem ouvidos – disse ele – vai encontrar o que procura lá.
   Ao virar as costas pude notar que havia um revolver sobre meu criado mudo, não me pertencia.
- Considere um bônus, alguém como você, não conseguiria ser cruel o bastante para usar outra coisa, talvez se for rápido mesmo você possa fazê-lo.
   Ele sumiu em seguida.
   Arrumei-me o mais rápido que pude. Dois segundos depois, ou o que me pareceu ser dois segundo, eu estava em pé de frente a entrada do Yellow Box, um galpão abandonado a noroeste de New Perrish.
   Ele parecia morto, como sempre fora, o lugar.
   A lua cheia brilhava alto, iluminando o caminho. O mais estranho era que chovia, mesmo com poucas nuvens no céu, mesmo com a lua tão clara estava chovendo.
  Abri a porta do galpão. Lá dentro apenas uma luz fraca iluminando duas pessoas amarradas lado a lado, sentadas no chão ao fundo, encostadas em algumas caixas, estavam muito bem presos.
   Não sei como, mas ele realmente consegui em pouco tempo achar quem procuro a anos.
   O revolver pendia em minha mão, eu o segurava forte, estava carregado. Acho que a hora era perfeita para descobrir se eu era boa de pontaria. Aproximei-me das duas pessoas até a luz poder iluminar meu rosto.
- Olá Christine, Jackson. Já faz um bom tempo não é?

***

   Eu nunca deveria ter deixado meu irmão sair de casa aquela noite, ele estava muito perturbado com um bilhete anônimo que recebera. Ele queria avisar a seu amigo e sua namorada o que estava havendo, que estavam fazendo esse tipo de brincadeira idiota. Eu não deveria ter deixado, mas era tão curiosa que apenas o segui. Apenas isso.

***

- Quantos anos fazem? Seis, talvez mais?
   Eles não podiam falar, suas bocas estavam tapadas com fita, isso apenas me foi ainda mais útil, teriam de me escutar e eu jamais precisaria ouvir suplicas, pedidos de perdão ou desculpas esfarrapadas.
   Seus olhos eram de terror.
- Talvez não me reconheçam, então vou refrescar a memória. Albert Salvaro. Esse nome lhes diz alguma coisa?
 Pude sentir o corpo deles enrijecer.
- Eu sou Anna. A irmã mais nova. Acho que agora você se lembram não? – me ajoelhei de frente para eles – Eu passei tempo demais procurando vocês. Sabem, não foi nada fácil, não acertar as contas mais cedo, mas a espera me trouxe ao meu destino, ou melhor, ao destino de vocês.
   Ambos tentaram gemer alguma coisa, os interrompi, até seus gemidos me deixavam nervosa.
- Se estão tentando pedir desculpas, ou implorar, ou mesmo respirar não gastem seu tempo – levantei-me num impulso, andei e depois virei para eles - Vocês não fazem ideia do que fizeram seus cretinos!
   Coloquei o cano da arma no rosto deles, um de cada vez, roçando. Eles choravam.
- Tudo foi arruinado por causa desse nojo que vocês chamam de desejo, essa doença. Vocês tinham que fazer isso não é? A namorada tímida e o melhor amigo canalha. Vocês trepavam pelas costas do meu irmão como dois cachorros vagabundos, fazendo exibição para todos os colegas do meu irmão, fazendo showzinhos  não era? Para aquele bando de monstros asquerosos que riam dele pelas costas.
   Não pude evitar que as lágrimas escorressem por meu rosto.
- Um deles, desses “telespectadores”, mandou aquele bilhete denunciando vocês, se por pena ou crueldade não interessa. Ele foi lá avisar vocês dos comentários maldosos, e o que ele viu? O que eu vi? Vocês transando feito dois animais. Mas o pior sabe o que foi? Foi quando vocês o viram e apenas continuaram, como se ele não estivesse lá. Vocês quebraram o meu irmão, não, na verdade foi pior do que isso, vocês o mataram!
   Gritei. Apontei o revolver e disparei.
   Tudo ficou mudo por um segundo. A bala passou entre a cabeça deles.
   Ainda não disse tudo.
- Depois disso todos os que sabiam começaram a rir do meu irmão, brincando, chamando-o de palhaço. Zombaram e humilharam. Tudo porque ele foi feito de idiota pela vagabunda e pelo traidor. Depois disso meu irmão criou uma fobia pelas pessoas, pelos olhares, trancou-se num quarto, tendo pesadelos toda noite, entrando em pânico apenas com a presença de outro ser humano, até da família. Meu pai adoeceu, tivemos que ir embora, e tudo piorou. Depois da morte dele e do sumiço da nossa mãe foi que eu realmente pude entender porque dizem que as desgraças nunca vêm sozinhas – respirei fundo e olhei-os com frieza - Agora é a vez de vocês sofrerem um pouco, pena que terá que ser na próxima vida, porque não vou deixar viverem nessa aqui por nem mais um segundo.
   Quando levantei a arma dessa vez eu sabia que não erraria, mirei direto em seus olhos, Christine seria a primeira. Eu quase podia sentir o meu ódio correr sólido pelas veias.
   Parei por um segundo.
   Uma luz muito forte se ascendeu, vinda da porta por onde eu havia entrado, como se fosse a porta do céu esperando pelos mortos que iriam fazer a passagem.
“Aqui é a policia, largue sua arma e se entregue”, gritou uma voz desconhecida.
   Olhei para aquela luz e com muito esforço pude ver meus carrascos, prontos para me impedir de fazer o que era necessário.
   “Por quê? Por que eu não consigo terminar? Por que não sou capaz de acertar as coisas? Policia miserável, nunca os odiei tanto! Tinham que me deixar acabar!”
   Claro que eu não fui capaz de resistir muito tempo, num piscar de olhos eu estava algemada e sendo levada para uma das viaturas e os verdadeiros culpado pelo inferno em que eu vivia estavam sendo soltos.
“O que seria de nós agora meu irmão?”, pensei.

***

   Faz apenas três meses desde que fui presa. Acusada de sequestro e tentativa de assassinato. Sorrow tinha razão, minha ação foi útil para ele, que usou-me como distração para fugir, já que estava sendo seguido mesmo nessa cidade. Desgraçado, escapou enquanto eu fiquei para servir de isca, não pude deixar de sorrir com isso.
   Após esse tempo eu fui liberada, Todd realmente tem muito amigos, imaginei que ele fosse o responsável pela minha soltura.
   Fui caminhando pela rua, devagar, um passo de cada vez, sem pressa de voltar para casa. Minha vingança esta morta e não estou chorando seu enterro, nem mesmo triste com ele, acho que não sei exatamente o que sentir. Chorei muito nos primeiros dias, não mais.
   Tudo estava perdido, eles provavelmente me escaparam para sempre, meu irmão ficou sem ninguém para cuidar dele, será que alguém o fizera por mim? Duvido. Ele nunca aceitaria nada de outra pessoa.
      Tudo estava quieto demais em casa.
- Irmão? – falei enquanto ia subindo a escada – Eu tive que ficar fora uns dias, aconteceram algumas coisas, mas eu voltei. Você quer comer algo? Farei algo bem...
   Calei-me quando olhei dentro do quarto dele e notei que não havia ninguém ali. Ele desaparecera.
   Imaginei se deveria entrar em pânico, mas minha expressão apenas morreu até virar algo parecido com tédio. Fechei a porta e voltei ao andar inferior. Ele não estava em lugar nenhum da casa.
   Tomei um bom banho, vesti uma roupa mais leve e joguei-me sobre o sofá, exatamente como fazia na casa de meus pais em uma vida a muito passada.
   Só hoje realmente notei que sou uma mulher muito bonita. Alisei meu corpo devagar, olhando para o espelho enquanto me vestia.
   Eu ainda não descobri o que tudo isso fez comigo.Resolvi sair, não estava conseguindo ficar quieta.
   Continuei andando pela rua, podia ouvir os carros passando levemente pela estrada. Podia ouvir as pessoas caminhando, não era mais como se eu estivesse sozinha.
   Ouvi a campainha de uma bicicleta, um jovem passou por mim montado-a, usando boné, muito rápido. Ele estava sorrindo, parecia feliz. Por alguma razão ele me parecia familiar. Mas não era possível, era? Provavelmente não, era difícil crer que eu encontraria meu irmão desaparecido assim, andando de bicicleta.
   Eu não sabia o que havia acontecido, para onde ele havia ido, talvez a fome o tivesse feito sair da casa e agora ele estivesse perdido, talvez ele houvesse morrido e fora recolhido, mas vou ficar com a terceira opção e pensar que ele poderia ser o rapaz naquela bicicleta, sorrindo, cantarolando, feliz, um final digno para alguém como ele.
    Um pequeno pássaro cortou o céu bem na minha frente, nunca reparei nos cenários em volta, no céu, nas coisas mais distantes, no horizonte da minha visão e nem naqueles que compunham essas mesmas imagens. Por um instante ele parecia mudar para varias cores, vermelho, amarelo, azul. Seria efeito da Luz?
   Por alguma razão eu chorei.
   As lágrimas correram por meu rosto, eu estranhei, sequei-as com a manga e sorri.
   Eu precisava agradecer ao Todd por me tirar da cadeia, só agora me lembrei disso. Ele não foi me buscar, provavelmente porque eu é que deveria ir até ele, quando estivesse pronta, ele sabia e me entendia.
   Corri até o bar e entrei, um pouco eufórica.
   Ele me olhou, não havia mais branco nele e sim uma nova cor, algo novo, algo mais vivo. Ele havia pintado a barba e o cabelo da cor que eu sugeri uma vez, ficou muito mais jovem.
   Eu sorri para ele, e ele retribuiu. Nossa fazia tempo que eu não sorria desse jeito.
   Seus olhos pareciam me fazer uma pergunta, eu sabia o que ele queria dizer e fiz meu olhar responder docemente.
   Porque não? Eu poderia correr atrás disso, de uma nova chance, recomeçar, voar como aquele pássaro, e talvez sorrir como o homem na bicicleta.

!!!

Obs: O pássaro azul simboliza prosperidade, libertação, superação e felicidade; caso você queira saber.


6 comentários:

  1. Eu já li esse conto faz tempo, gostei do nome Anna ;)
    como sempre você arrasa!
    Mais não vou mais comentar até porque o meu comentário não serve.... :3
    Vou continuar a encontrar seguidores.
    Boa sorte!

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    1. Own, não diga isso!
      Todos so comentarios de todos os meus hóspedes são importantes para mim.
      Eu amo todos vocês!

      E você é minha mais leal... Gostaria de ser minha amiga?

      Att, seu amigo...

      James

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  2. Respostas
    1. Obrigado, muito obrigado! Espero que também consiga ver seu próprio Pássaro Azul.

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