sábado, 6 de janeiro de 2018

In Noctem

"-Essas palavras tem algum sentido? Nenhum.

-Existem algumas pessoas mais culpadas do que outras? Logico, e ela vão ter que prestar contas.

-Mas sejamos honestos. se se procuram um culpado só precisam se olhar no espelho."




Capítulo XIX

   E foi aberta a ultima porta. Eu estava em um corredor mal iluminado, a minha direita uma escadaria, porem a passagem estava lacrada com arame farpado, praticamente intransponível, e já que meu machado não estava em mão, ali não era um caminho viável. A esquerda era o mesmo, a escada subia, mas estava impedida, em outras palavras não havia por onde sair.
  Caminhei a passos curtos pelo corredor escuro. Meus olhos já estavam se acostumando, não havia ameaças a vista, mas o clima estava denso, difícil explicar o quanto, não havia portas a esquerda, e as duas primeiras à direita estavam lacradas por tabuas de metal, somente a ultima não possuía barreira, por um segundo pensei que deveria reconhecer esse lugar, uma sensação muito familiar.
- Chega de perder tempo – insisti.
   Entrei.
   Parecia apenas um quarto comum, sala e cozinha, centro e a esquerda, uma porta a direita e um corredor na mesma direção mais a frente. Quando dei um passo a frente a porta atrás de mim bateu com um estrondo, no segundo seguinte todo o lugar possui um brilho avermelhado, como o crepúsculo nas tardes mais vibrantes. Eu havia dado as costas e encarado a porta, mesmo ouvindo os pequenos sussurros vindos de todo lugar, não ousei me virar.
- É bom finalmente estar cara a cara com você, Hall.
   Difícil dizer que a voz era reconhecível ou não, mas ela sim fez com que eu me virasse.
   Havia rostos em carne viva vibrando nas paredes do lugar, eram elas a origem dos sussurros. Logo a minha frente haviam duas poltronas que não estava ali antes, a de costas para mim estava vazia, a que estava a frente dessa ocupada por um homem de pele quase azulada e transparente, o cabelo era escorrido e encaracolado, barba por fazer, roupa comum e um sorriso de gelar corações. Entretanto algo ali era novo, algo ali eu não conhecia nem por descrição, John Silent nunca pode observar, mas eu estava vendo. Os olhos do Torturador eram tristes, e não combinavam com absolutamente nada do resto.
   Os sussurros nas paredes pararam por um instante, tudo se calou, e logo em seguida todas juntas começaram a cantar, eram belas vozes, e por isso tão assustadoras.

Carry My Soul
Into The Night
May The Stars
Guide My Way

- Achei que suas faces de carne ficassem em sua sala de operações.
- Meus domínios vão muito alem disso. Sente-se Hall, ambos sabemos que deve estar cansado.
- Ficarei de pé obrigado.
   Senti uma dor aguda no pescoço, BigOne estava logo atrás de mim, agarrou-me e 0obrigou-me a sentar, depois ficou apenas parado entre nós, exalando sua respiração profunda e fétida.

I Glory In
The Sight
As Darkeness Takes the Day...

- Lamento pela recepção um tanto brutal, mas não quero você fazendo uma cena. Tive décadas de trabalho para em fim poder estar com você cara a cara. O Sr. Silent provou-se muito útil no final, espero que permaneça assim.
- Porque todo esse trabalho para me trazer aqui?
- Hahaha. Curioso! Um mal de família imagino.
   Não respondi a provocação, mas minha curiosidade estava me corroendo por dentro, o que ele tanto queria comigo?
- Vamos fazer um pequeno jogo que acha Hall? Você me conta que truque minha irmã esta fazendo para te manter vivo, e eu respondo uma de suas perguntas. Parece justo não?
   Ele tem uma irmã?
- Vá pro inferno – cuspo.
- Não seja grosseiro.
- É você quem esta tentando me matar.
- Correto, e nisso não posso voltar a trás, lamento muito, mas pense bem Hall, não seria tão ruim ficar aqui comigo. Poderia me ajudar a controlar tudo isso. Quero você ao meu lado, somo quase irmãos eu e você!
   Cada palavra dele soava nauseante, me angustiava ver o quanto ele realmente acreditava naquilo tudo. Maldito psicopata.

Ferte In Noctem Animam Meam
Illustre Stelle Viam Meam
Aspectu Illo Glorior
Dum Capit Nox Diem

- Você não conhece toda a história Hall.
- Então me conte.
- Se ficar aqui comigo. Se me ajudar.
- Prefiro morrer a ajudá-lo.
- Que tédio – ele se joga sobre o recosto da poltrona e levanta as mãos todos que dizem isso morrem, e depois em ajudam do mesmo jeito. Só uma vez seguir o caminho mais fácil é pedir demais?
   Ele estava muito confiante, estava jogando comigo, a criatura era seu escudo, apesar dele provavelmente não precisar de um. Não queria admitir, mas o suor frio em minhas mãos e pernas não me deixava duvidas, meu nervosismo estava perigoso, eu tinha de manter a calma, virar o jogo, ou logo estaria morto, e não sabia se voltaria dessa vez.
- Você pode ser morto por alguém do seu sangue não é? É por isso que tem medo que eu encontre o tal Dante? O garoto tem algo haver com você? Ou esta tal irmã sua, ela que é a tal Rainha Vermelha?

Cantante Vitae Canticu
Sine Dolore Acte
Dicite Eis...
  
   Apostei e foi alto. O rosto dele foi de descontraído para horror e surpresa total. Por um segundo achei realmente que fosse ser morto, mas por fim ele sorriu, acalmando a si mesmo, e relaxando outra vez. O jogo continuava.
- Trazer você aqui foi um desejo dos dois lados ao fundo, eu quero te matar e acabar com tudo, e alguns insetos acham que você pode ser a chave para o fim de tudo que eu construí, todavia tem algo que ninguém consegue enxergar – ele saltou do banco e seu rosto se transformou, sua voz tornou-se um grito – tudo que eu fiz foi justo! Apenas sou o que todos queriam que eu fosse, mas nem de longe sou o monstro aqui! – então ele voltou a se acalmar – Ou melhor, eu não era, agora eu sou. Essa cidade é minha Hall, aqui só entra que eu quero e só sai quem eu deixo.
   Foi minha vez de remover a expressão de susto em minha face e tentar me recompor antes de falar.
- Bem Torturador...
- Flinders é meu nome, mas você pode me chamar de James.
   Flinders? Espere, é mesmo, no relato de John havia algo sobre isso. Flinders enganou e matou todos que vieram junto a Hwan, o homem que ajudou Silent, esse era o sobrenome do Torturador então...
- Dante Flinders! Esse é o nome do garoto, por isso tem medo dele, é seu parente, e essa Rainha Vermelha deve ser sua irmã, por isso tem medo deles, por isso...
   Outra vez falei demais, BigOne agarrou minha garganta no mesmo instante e me ergueu do chão, tirando o ar, deixando em pânico e me retorcendo.

Sing A Song
A Song Of Life
Made Without Regret

- Parece que nosso encontro foi em demasiado precipitado meu jovem amigo.
   Tentei falar entre mo aperto em minha garganta, foi meu terceiro erro. BigOne cravou suas unhas em meu pescoço e arrancou fora minha garganta. O choque foi instantâneo e agora eu estava engasgando em meu próprio sangue.
- Você só me dá trabalho não é irmãzinha? – ele falou para o ar – Mas não vai poder trazê-lo de volta a vida para sempre, e nem você nem nosso querido irmão vai poder fazer qualquer coisa a respeito – voltou-se para mim novamente – Por hora é um adeus Hall, tenho a impressão de que nos veremos de novo, mas sua sorte não durará para sempre. Ah verdade! Diga a sua “Rainha Vermelha” e para nossa doce garotinha que eu disse... Olá!
   BigOne atirou-me pela janela atrás do Torturador.

Tell The Ones
The Ones I Love
I Never Will Forget
   
    O vidro se partiu e eu atravessei para o frio, a neve, e logo mais o chão.

Never Will Forget...



"Bem vindos a minha casa
Aqui só entra quem eu deixo
E só sai quem eu quero"



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